Dia desses, conversando
com uma amiga, contei sobre não ter passado bem na noite anterior... E; assim
que contei, me dei conta de que passei mal porque não escrevi... Porque sou
assim, quando algo me angustia, das duas uma ou eu escrevo ou converso com
alguém. E, como sempre menciono neste blog, O ATO DE CONVERSAR ESTÁ CADA VEZ
MAIS ESCASSO. Então, deveria ter escrito. Não o fiz. Resultado: mal estar e
insônia. Além disso, mesmo quando consigo conversar, percebo que estamos cada
vez mais impacientes com o outro. Não temos mais paciência de ouvir, nós queremos
que tudo seja muito rápido. Ninguém tem tempo a perder.
Precisamos
reaprender a falar; olhar nos olhos; tratar o outros com POLIDEZ. Nesse
sentido, cabe à educação formal dar o exemplo; justamente a educação formal,
local onde enxergo mais falta de educação, muito provavelmente, devido ao fato
de a escola não fazer o que é mais que seu dever: HUMANIZAR AS RELAÇÕES. O papel do professor, “hoje”, não é outro
senão HUMANIZAR A EDUCAÇÃO. Como? Através; sobretudo, do diálogo. Ocorre que o
professor também está desaprendendo a dialogar (e, quando uso o verbo no
gerúndio, estou sendo otimista demais). Isso é muito triste. Estamos perdendo e
EMPOBRECENDO nossa principal ferramenta de trabalho: a fala. E, quando digo “a
fala”, refiro-me a fala que cala quando é preciso ouvir; outra atitude escassa
na educação; tanto nas relações professor-aluno como aluno-aluno e em todas as
outras.
Ainda sobre
a fala, sou um tanto radical quanto à forma de falar do professor NO CONTEXTO
ESCOLAR. Não quero dizer aqui que está permitido ao professor SER BIPOLAR.
Explico. Na minha casa, meus familiares não têm, por exemplo, a menor obrigação
de falar corretamente, de fazer uso da linguagem formal. E, quando estou com
eles ou com amigos em situações informais , me permito falar sem a preocupação
com a formalidade da língua culta. A propósito, certa vez, alguém me disse que
a Língua Portuguesa (como todo idioma) é como um grande guarda roupas, repleto de opções para todas
as ocasiões e para os diferentes “encontros”; então eu o abro e escolho um traje formal quando frequento um
local que exige formalidade; escolho um
traje esportivo se vou à academia e
assim por diante. Logo, se vou à escola, que é, a priori, um AMBIENTE FORMAL,
devo me vestir adequadamente, o que equivale dizer que o PROFESSOR TEM A
OBRIGAÇÃO DE FALAR CORRETAMENTE.
Sempre que
converso sobre a necessidade de falar corretamente em sala de aula, não
raramente, ouço críticas ferrenhas. As quais eu rebato sem o menor problema,
pautada no argumento de que, muito provavelmente, a sala de aula e o “modo de
falar do professor” seja o ÚNICO REFERENCIAL de comunicação que o aluno terá.
Quais são os outros? Talvez nenhum.
E o respeito?
AH O RESPEITO!!! Cadê? Frequento ambientes escolares todos os dias. Tenho o privilégio de transitar por
diferentes instâncias e níveis de ensino; por isso, posso garantir que POUCAS
SÃO AS PESSOAS EDUCADAS EM AMBIENTES EDUCACIONAIS. É um paradoxo? Sim. Porém, é
uma triste constatação. No local onde mais se espera ser bem recebido; ouvir
conversas civilizadas; presenciar respeito mútuo é onde ouço mais GRITOS e onde
presencio mais DESRESPEITO.Cabe aqui
uma ilustração sobre a importância da humanização das relações. Por exemplo, um
professor que trabalha com base na HUMANIZAÇÃO e que, portanto, dialoga com seu
aluno, não somente veria o lápis usado pelo seu aluno, como também CONVERSARIA
com ele para saber o motivo de usar um lápis tão pequeno (cerca QUATRO centímetros), que praticamente,
impedia seus movimentos.
Troquei este "lápis" por um novo,. O aluno, ao me visitar na sala de leitura, estava transcrevendo uma ficha catalográfica com isso. Perguntei se ele tinha outro e e ele respondeu: "Não Mari, este é meu e da minha irmã.
O Google
possui e apresenta, de forma interativa e interessante, infinitas vezes MAIS
CONTEÚDOS E INFORMAÇÕES que o professor. Se tivermos como parâmetro apenas os
conteúdos de ensino, o Google é muito mais eficiente que nós. Daí, mais um
motivo para fazer valer a humanização da educação. Pois, se a escola e o
professor podem oferecer, no máximo, conteúdo e informação, então o GOOGLE está
anos-luz à nossa frente. Se o professor não TIVER EDUCAÇÃO E SENSIBILIDADE SUFICIENTES para
tratar seus alunos e seus pares de modo respeitoso, então o aluno não sentirá nenhum
“diferencial” entre seu professor e seus colegas fora da escola.
Reparem que
ainda não fiz alusão alguma à questão salarial ou à valorização profissional. Ouço
professores justificarem suas práticas pedagógicas nada dignas com argumentos
como: “NÃO GANHO PRA ISSO!”; “A GENTE FAZ DE TUDO E NINGUÉM DÁ VALOR!”. Se estes
argumentos são válidos ou não, é uma questão de perspectiva. Porque, desde que
presto um concurso ou me inscrevo para a função docente, estou ciente do
salário. A questão da valorização é ainda mais relativa. Há gestores,
comunidades e familiares que valorizam seus profissionais; outros, não. Logo, devemos ponderar sobre alguns aspectos:
- se a
qualidade da minha prática está diretamente associada ao salário que aceitei,
DEVO FAZER POR MERECÊ-LO, atuando de forma ética e responsável;
- se o nível
da qualidade da minha prática DEPENDE DA VALORIZAÇÃO por parte da Gestão
escolar, dos familiares e dos meus pares, consequentemente, minha prática
oscilará de acordo com os elogios que poderei ou não receber.
Isso
demonstra o quão somos frágeis ou nos tornamos frágeis em relação à função
docente. É preciso ter muita vontade e responsabilidade social para CONTINUAR
DOCENTE. Entendo que há muitos problemas e obstáculos profissionais e pessoais
enfrentados por nós, professores; mas entendo também que o “adulto” da relação,
teoricamente, somos nós; principalmente, no sentido de possuir mais vivência que
o aluno. Daí nossa responsabilidade e DISCERNIMENTO para sentir quando não dá
mais; quando já ultrapassamos nossos limites de CIVILIDADE. E, uma vez,
constatado isso, é UM CRIME CONTINUAR EM SALA DE AULA.
Sempre que escrevo
um artigo sobre prática docente tenho a sensação de “Déjà vu” ou de “mais do mesmo”. É uma
temática clichê? Sim. E é justamente isso que me instiga a deixar alguns questionamentos:
1 – Uma vez
que já se falou, estudou e falou tanto dobre as questões que envolvem as relações
pedagógicas levando o tema, praticamente à exaustão, POR QUE AS “COISAS” NÃO
MUDAM?
2 – Por que
ainda ouço tantos GRITOS em sala de aula? Ouço expressões como: “Cala boca
vocês dois!”; Não estou falando com você! Que saco!”“; “Não tem mãe não
moleque?”... Tem muito mais... Fica pra outra vez!
3- Por que
boa parte dos professores tem dificuldades de argumentar (tanto oralmente como
por escrito):
4 – Por que
a maioria de nós não tem o hábito de ler?
5 – Nos
colocamos no lugar dos alunos; ou seja, conseguimos nos distanciar da “cena” e analisar
nossa CONDUTA PEDAGÓGICA?
6 – Eu gostaria
de ter aulas com um professor com meu perfil?
7 – E,
finalmente, meu questionamento favorito: De que os alunos se lembrarão quando “deixarem” a escola?
Obviamente,
tais questionamentos são apenas pontos de partida para reflexões individuais;
porém, sintam-se à vontade para comentar, argumentar, contradizer... Enfim, após
respondermos pra nós mesmos estas questões, basta um pouco de BOM SENSO. Se
soubermos todas as respostas e continuarmos fazendo a “coisa errada” e, além disso,
NÃO ESTARMOS FELIZES COM O QUE FAZEMOS, é
porque temos motivos suficientes para deixar a carreira docente.Fato é que
OS BONS DOCENTES QUE CONHEÇO possuem um perfil interessante que nos leva à
constatação de que, independentemente de elogios; valorização ou “melindres”,
eles enfrentam os obstáculos (que não são poucos) e ministram suas aulas com
qualidade e com dignidade. Quando estiverem num ambiente escolar, reparem em
volta e observem a FISIONOMIA dos professores. É fácil identificar os bons
professores: ELES SÃO FELIZES E BEM HUMORADOS apesar de todos os fatores
contrários. E “estão felizes” não quer dizer que sorriem o tempo todo; significa que
ele SORRI PARA SEUS ALUNOS (E COM SEUS ALUNOS); que usa um TOM DE VOZ AGRADÁVEL
(eu não sei quem disse que professore tem que gritar – e, pior – vira mania:
grita em casa; na fila do banco etc.), eles ESCUTAM os alunos; que NÃO É RANZINZA, CARRANCUDO E “RECLAMÃO” (o que é diferente do professor consciente,
que se manifesta educadamente com bons argumentos). Por fim, os PROFESSORES, aqueles que podem (e devem) continuar na carreira
docente, são aqueles que NÃO MATARAM A CRIANÇA QUE VIVE DENTRO DELES.