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EDUCAR É, ANTES, SENTIR... E TODOS SÃO CAPAZES DISSO.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

“VOCÊ TEM UM PROBLEMA?”

POR MARI MONTEIRO



O título deste artigo até parece um daqueles anúncios de tarô e afins colados nos postes da cidade. Não é o caso. A pergunta é LITERAL e VISCERAL. Tenho um amigo muito querido, de longa data, cujo nome é Mailson e trabalhamos muito tempo juntos. Outro dia nos reencontramos rapidamente (depois de mais ou menos uns três anos); tempo suficiente para relembrarmos algumas passagens bem “punks” das nossas vidas. Ele me disse algo interessante. “Mari, sempre que ouço alguém reclamando de banalidades; mas banalidades mesmo: ‘Eu quero uma calça de 500 reais e só posso comprar no mês que vem! ’; ‘Putz! Não irei ao próximo show internacional! ’; ‘MINHA MÃE PEGA MUITO NO MEU PÉ! ’ e por aí vai... A vontade que tenho é dizer: ‘Vem cá amigo, então você tem um problema? Vou te contar uma história. ’ E dizer daquilo que ocorre de mais forte em nós, que nos ARRASTA e nos deixa à deriva, sem bote salva-vidas E SEM MÃE PRA PEGAR NO PÉ...”.

Problemas? Os problemas têm um jeito próprio de machucar e de abater a cada pessoa. O fato é que todos têm (em maior ou menos grau). A questão é que alguns deles nos colocam DIANTE DE UM ESPELHO para o qual não queremos olhar e dizem: “E agora?”. Aí, nos olhamos, com certo desconforto, e devolvemos a pergunta: “E AGORA?”. E lá está você, o espelho e sua fé. Porque, acredite, nestes momentos, o espelho não reflete mais ninguém. Apenas você. Seus amigos estão longe, seu pai e seus irmãos também. E SUA MÃE NÃO ESTÁ LÁ PARA PEGAR NO SEU PÉ.


Agora, como diz meu amigo Mailson, vem cá que vou te contar uma história. Era uma vez um menino de oito anos chamado Felipe, está no segundo ano, não sabe ler, nem escrever e já viu muita coisa ruim nesta vida. Tive o prazer de conhecê-lo este ano. Era para ter sido uma simples aula de leitura... Mas, que leitura?

(...) Estávamos no meio de um momento de leitura. Quando eu, sem saber da história, sugeri ao Felipe que estudasse mais em casa, que pedisse ajuda à sua mamãe. Infeliz momento.
 FELIPE: Num dá. Só estou com meu pai.
- Por quê?
FELIPE: Porque minha mãe bebeu soda.
(Imediatamente me lembrei de ter ouvido dizer que a mãe de um aluno da escola havia ingerido soda cáustica).
- Por que ela bebeu soda?
FELIPE: Porque ela queria morrer.
- E por que ela queria morrer?
FELIPE: Pra ir pro céu (sic).
- Onde ela está agora?
FELIPE: No Magine (ele quis dizer Nardine – um hospital público da região)
- Como ela está?
FELIPE: Ela está bem magrinha (e mostrou com os dedinhos...).
- Você acha que ela iria para o céu se morresse?
FELIPE: Acho “móde (sic) que” ela tava ino (sic)  na igreja e depois não ia mais e o diabo estava dentro dela. E tem uns que vai pra baixo... Pra treva. No dia que ela bebeu soda, ela disse que eu só ia ter mãe naquele dia.
- Você quer ficar pra sua mãe ou com seu pai?
FELIPE: Quero ficar com minha mãe, mas num vô (sic) podê (sic) só porque móde(sic) ela bebeu soda.
- E agora?
FELIPE: Ela vai pra Goiânia quando sai do hospital, móde (sic) que meu irmão tá (sic) lá.
- Por que ele foi embora?
FELIPE: Foi com minha vó(sic). Quando eu ficar grande eu vou também pra Goiânia móde (sic) que quero ficar com minha mãe.
- Você promete vir conversar comigo todo dia? Promete?
FELIPE: se minha prô (sic) deixar, eu venho.

(...)
Alguns dias depois, para minha surpresa, apareceu um rostinho na porta e se escondeu. Chamei: “Felipe?” Mal terminei de falar e ele pulou nos meus braços e me abraçou com força. E A MÃE DE FELIPE NÃO  ESTAVA MAIS POR PERTO PARA LHE OFERECER COLO . Ela havia partido três  dias depois do nosso encontro.


Penso que existem problemas que são grandes demais para pessoas pequenas demais; não falo apenas sobre os dramas infantis semelhantes ao de Felipe; falo de mim; falo de você; de nós que, quando fragilizados, tomamos a forma e o tamanho de um bebê indefeso. Pedimos colo. E NEM SEMPRE NOSSA MÃE ESTARÁ ALI PARA NOS OFERECER COLO.  E quando você e eu acharmos que temos um problema, olhemos para os lados, ouçamos outras histórias... NÃO PARA NOS CONFORMARMOS (aquela coisa irritante de ouvir sobre zona de conforto, o clichê: “tem gente passando coisa pior!”); mas para dizer NÃO! NÃO PODE SER PARA ISSO QUE ESTAMOS AQUI. A vida não deve ser assim. Mesmo porque, segundo um poeta: “reza a lenda que a gente nasce é para ser feliz!” ENTÃO QUAL É O PROBLEMA? O problema é o percurso. É nele que nos perdemos e nem sempre nos reencontramos; mas sempre há de ter algo de bom em cada dia vivido; porém, sem OLHOS ATENTOS e CORAÇÕES HUMILDES, não veremos estes momentos. Vamos atropelá-los e, à noite, nos deitaremos apenas com as amarguras.


SOLUÇÕES? Quem dera as tivesse. Mas, sou abusada. Do contrário não estaria aqui pra contar a história. Tenho sensações, INTUIÇÕES e a principal é a de que devemos aprender a fazer o contrário: superestimar os risos e a presença discreta de qualquer traço de esperança, as palavras ditas com doçura e os olhares.  Ah! Os olhares! Estes são inesquecíveis; aqueles que se demoram e que mergulham em outro olhar, dizendo muito apenas com o silêncio e com suas cores; os abraços... Que, tomara, um deles seja o da NOSSA MÃE QUE AINDA ESTARÁ POR PERTO... E, se não mais estiver fisicamente, como a mãe do Felipe, que aconteça o que desejei a ele: que possamos nos lembrar de SEU OLHAR, sentir seu CHEIRO DE MÃE e seu colo que cura todas as dores deste mundo. Mas, enquanto ela estiver por perto, não passe um só dia sem dizer que a ama; abrace-a sempre que possível... Sem pressa, deixe que seus corações se encontrem. Converse olhando nos olhos dela. Decore sua íris... Memorize seu cheiro... Valorize sua presença. Porque quando, finalmente, restarem apenas lembranças, seus sentidos vão cobrar todas estas sensações e você as terá guardadas no lugar mais sagrado que existe: NA SUA ALMA!
Frase creditada  ao Roberto Frejat (Barão Vermelho)

domingo, 13 de outubro de 2013

FELIZ VIDA DE PROFESSOR!

POR MARI MONTEIRO

(Frase creditada a Renato Russo)

Desejo que cada minuto valha a pena;
Que, ao menos, um aluno de cada turma, jamais te esqueça; que eles QUEIRAM APRENDER.

Desejo um salário digno e uma boa dose de glamour.
Que seus alunos te achem bonito (a), perfumado (a), iluminado (a).

Desejo que você não precise gritar para ser ouvido.
Que seus ensinamentos sirvam a você e aos seus alunos.

Desejo que seus olhos brilhem ao responder: “Qual é sua profissão?”.
Que você possa dizer que NÃO DÁ aulas, mas que as vende por um preço justo e que, de brinde, oferece SONHOS...

Desejo que as linhas de expressão do seu rosto sejam de tanto sorrir ou de chorar de alegria; mas, nunca, causadas pela ira... Pela escolha errada... Pelo arrependimento...
Que seja sempre OUSADO (A) e não esconda suas dores e seus medos. Enfrente-os com orgulho.

Desejo que esteja INTEIRO (A) quando chegar a hora de colher os frutos do seu trabalho.
Que cada dia da sua carreira, seja lembrado como um dia “BEM VIVIDO.”.

Desejo que seu semblante seja portador de aconchego para os alunos.
Que seus alunos sejam bons para você, que os respeite e valorize.

Desejo, por fim, que se, ao menos metade disso ainda não estiver acontecendo, você tenha a CORAGEM de parar tudo.
Que PARE AGORA. Não adoeça! Há tantas alternativas e a vida é tão fugas. E, segundo reza a lenda, a gente nasce é para ser feliz!


FELIZ VIDA DE PROFESSOR!!!
COM CARINHO, MARI... Uma professora feliz... Por enquanto!


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

E ESTA HISTÓRIA ESTÁ APENAS COMEÇANDO...

POR MARI MONTEIRO


Nesta vida, é preciso estar atentos aos sinais, aos presentes enviados por Deus. Já recebi muitas pessoas de presente!  Há também pessoas que nos tiram o ânimo e a energia.  Em contrapartida, há pessoas que nos empolgam com sua vivacidade, habilidade e luz própria. A Mylena Andrade Cordeiro é uma destas pessoas.


Tive o prazer de conhecê-la este ano no Ensino Médio do CEC. Tenho a honra de ser sua professora de Literatura Brasileira. Foi amor à primeira vista. A cada dia, uma surpresa boa se revela. Mylena é uma atleta de tênis de mesa que nos representa dentro e fora do país. Nada é obstáculo para ela. Sempre disposta e com um brilho único no olhar, participa de todas as competições de peito e CORAÇÃO abertos.


“Disputar os Jogos Paralímpicos do Rio em 2016, sabendo que tem concorrentes fortes, parece um sonho distante para uma garota de 15 anos. Apenas parece.



 A mesa-tenista Mylena Andrade Cordeiro, de Ribeirão Pires, sabe que este é apenas mais um obstáculo em sua curta, mas vitoriosa carreira. Há cinco anos competindo no tênis de mesa, hoje  na categoria juvenil, ela é dona de simplesmente 38 medalhas, primeira colocada no ranking da classe 5 e vai disputar o PARAPAN - AMERICANO da modalidade, em outubro, em BUENOS AIRES (Argentina). 
  http://www.dgabc.com.br/Noticia/482316/rio-2016-nao-sai-da-cabeca-de-mesa-tenista-de-ribeirao-pires?referencia=buscas-lista (acesso em 10/10/2013). Aos poucos, ela conquistou não somente medalhas, mas também o respeito  e a admiração de todos que a cercam.

 Há mais uma pessoa que preciso apresentar. Sua mãe: Shirlei Cordeiro. Uma mulher admirável. Arrisco afirmar que é esse amor todo (TÃO VISÍVEL A OLHO NU, pois basta ver o brilho nos olhos das duas para vê-lo transbordar) que faz da Mylena o que ela é: forte; guerreira; incansável e disciplinada nos seus treinos; uma filha preciosa; uma amiga leal (tenho o privilégio de sentir isso na pele) e um a adolescente linda, adorável, com sonhos, desejos muitas conquistas por fazer e muitos amores por viver. A propósito, Mylena possui um dos maiores bens que um ser humano pode ter: uma linda família, da qual sempre fala com muito amor e carinho.


Para nós, do Colégio Euclides da Cunha, foi uma honra prestar-lhe uma singela homenagem de despedida para seu desafio na ARGENTINA. Através da iniciativa da Professora Roseli Belo e da Coordenação do Colégio Maria Alice Camargo, nós, professores e alunos nos despedimos dela nesta linda manhã de quarta feira ensolarada com muita alegria e emoção.

Assim, em nome de TODOS O SPROFESSORES, FUNCIONÁRIOS E ALUNOS do Colégio Euclides da Cunha, tenho o prazer de desejar o melhor a ela. Sorte não, pois se há uma coisa em que não acredito é “sorte”. Acredito em “FAZER POR MERECER”. E isso Mylena aprendeu desde bem cedo.   Estamos com você Mylena. SEMPRE!



(...) Dias depois...

Aconteceu o que todos esperávamos, pois Mylena SEMPRE faz por merecer. Ela conquistou A MEDALHA DE OURO!!! Em nome de todos agradeço aqueles que torceram  e a Deus por presenciarmos sua VITÓRIA!!! Parabéns Mylena!!!

domingo, 29 de setembro de 2013

MIKE: O REENCONTRO!

POR MARI MONTEIRO


Tarde de primavera, setembro de 2013.


Aguardo ansiosa uma visita importante: Mike. Mal posso acreditar que irei revê-lo. Será que ele se lembra de que marcou comigo? O que achará do artigo que lerá no blog? Preciso que ele o aprove. Afinal, além de ser sobre ele, também preciso de sua  permissão para escrever e registrar nosso REENCONTRO... Sete anos depois...

Pontualmente, às duas horas da tarde, alguém sobe até minha sala e anuncia que Mike chegara. Meu coração disparou. Pedi que ele subisse. Havia acabado de falar com seu pai ao telefone (foi um retorno no tempo e no espaço, ouvir aquela voz generosa e educada, de quem cujo nome é Sr. Rosângelo e não Sr. Antônio, como me “recordava” no primeiro artigo.), ele me disse que Mike havia ido ao banco e que, depois, passaria na escola para conversar com uma professora. Apresentei-me e – feliz – pensei: “ELE NÃO ESQUECEU!”.

Não demorou e Mike surgiu no corredor. Eu o aguardei na porta. O abraço foi emocionante. INCRÍVEL COMO OS OLHARES NÃO MUDAM (impossível fingir um brilho no olhar). E o sorriso? O mesmo do menino de doze anos que conheci. Logo pedi para que uma pessoa registrasse nosso reencontro. Tiramos algumas fotos.

O artigo “POR ONDE ANDARÁ O MIKE?”, escrito em 21 de fevereiro deste ano, já estava esperando por ele no computador. Sentamo-nos e eu lhe contei sobre os motivos que me levaram a escrever sobre ele. Em seguida, deixei-o à vontade para ler o artigo. Confesso que fiquei tensa, não sabia quais seriam suas impressões. Concentrado, ele lia atentamente cada parágrafo. Às vezes, olhava pra mim e ríamos. Quando terminou, estávamos com os olhos úmidos.

- Legal hein Professora?
- Gostou?
- “Da hora!”

(...) Silêncio.

Mostrei a ele o funcionamento do blog e os depoimentos dos meus alunos do Ensino Médio e de outras pessoas sobre sua história. Ele ficou surpreso. Ele soube que muitas pessoas leram e passaram a conhecer aquela pequena parte de sua vida  e que, agora, veriam o seu ROSTO, seu OLHAR e seu SORRISO.

Conversamos sobre todos os outros colegas da nossa turma de 2006. Rimos de muitas lembranças. “POUCOS CONTINUARAM OS ESTUDOS. A MAIORIA PAROU DE ESTUDAR PRÔ!” Isso me entristeceu. Mas, logo o Mike sorriu e voltei para aquele momento. Ele  está no Terceiro ano do Ensino Médio. “ATÉ A SEXTA SÉRIE EU FUI RUIM, MAS DEPOIS EU MELHOREI E AGORA ESTOU MAIS OU MENOS.” Disse ele e, claro, sorriu aquele sorriso de luz. Contou-me que prestará o ENEM. Falamos sobre a possibilidade de ele ser aprovado e cursar uma universidade. FICAMOS FELIZES AO PENSAR NISSO.

Muitas coisas passavam pela minha cabeça enquanto conversávamos. Mas, o que eu mais dizia a mim mesma era: “ELE É UM VENCEDOR, UM SOBREVIVENTE DO SISTEMA!” Mas, não podia ignorar o fato de que muitos haviam ficado pelo caminho. E... Vai entender!  Eu havia cismado justamente com o Mike; talvez eu merecesse mesmo essa alegria, esse retorno. Porque, caso escolhesse qualquer outro aluno para contar a história, talvez eu não estivesse aqui agora, feliz da vida, escrevendo este artigo. Talvez me tivesse sido negada esta satisfação.

Conversamos sobre muitas outras coisas que não caberiam aqui. Providenciamos contato pelo Facebook e ele prometeu voltar sempre. Em seguida, fomos até a Direção para vermos a Helena, que teve muita importância nesta história, tanto hoje como há sete anos. Foi mais um momento único. Ela o RECONHECEU imediatamente. E isso o deixou bem feliz.

Na despedida, promessas de não nos perdermos um do outro. Quero notícias sobre o ENEM; sobre os rumos que a vida dele tomará... Um abraço fraterno selou nosso reencontro...

Já se passaram alguns dias desde que o vi na rua, quando ele gritou, passando por mim apressado: “E AÊ PROFESSORA MARI?”. Olhei, retribui o cumprimento e continuei andando. Alguns passos adiante, me dei conta: “É O MIKE!” Mas, já não podia mais alcançá-lo. Ele havia se embrenhado na multidão. Iniciei uma busca no mesmo dia. Bendito dia! Bendito reencontro em que me chamara pelo nome sete anos depois! BENDITO MUNDO QUE GIRA e nos faz rever; reviver; reencontrar; repensar; recomeçar e REANIMAR, no sentido mais amplo da palavra.

No primeiro artigo, terminei com a seguinte frase: “(...) Espero que esteja bem... E que um dia possa, por um destes acasos providenciados por Deus, ler este artigo e dar notícias...”. FUI ATENDIDA! Então, só posso terminar este artigo agradecendo a Deus, ao Mike e à sua família, aos meus alunos do Ensino Médio do CEC (2013), QUE AGORA FAZEM PARTE DESTA HISTÓRIA; à Diretora Helena; à Cidinha  e José que o localizou e à Conça. 

Finalmente, a TODOS OS LEITORES, desejo momentos como este: momentos de felicidade que, embora breves, se fazem eternos na lembrança... Bem guardados num RELICÁRIO de onde os retiro, como arquivos,  para usar como bálsamo na superação de outros momentos não tão felizes assim...

"Esta parte da minha vida, esta pequena parte, se chama Felicidade."  (do filme: À procura da Felicidade)

Para ler o primeiro artigo: "MIKE: POR ONDE ANDARÁ O MIKE?", CLIQUE NO LINK ABAIXO:
http://educandoquem.blogspot.com.br/2013/02/mike.html



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

DOCENTE DECENTE: QUANTOS SOMOS MESMO?

Por Mari Monteiro



Começaram as inscrições para um dos maiores concursos públicos do Estado de São Paulo. Obviamente, será fácil. Aposto como o Governo vai "facilitar". Mesmo porque se ele está ciente da falta de professores na Rede e na DECADÊNCIA da qualidade do ensino, ele não pode exigir muito.

Fato é que SOMOS UMA ESPÉCIE EM EXTINÇÃO! Venho afirmando isso algum tempo. Trabalhando com alunos do Ensino Médio, percebemos as escolhas profissionais. Há tempos, ninguém opta pela carreira de professor. Das duas uma. E ISSO VAI DOER! Ou nós não lhes inspiramos mais (porque a nossa profissão perdeu o glamour e nós o perdemos também!) ou eles estão conscientes do quanto nos desgastamos em troco do que "não haveria preço". 

Que profissional, além do professor leva tanto serviço para casa? O médico, por exemplo leva seus pacientes para operar em casa? Trinta a quarenta alunos por sala; se quiser se manter financeiramente (com o mínimo para sobreviver com decência) terá que dobrar período ou trabalhar em até três ou quatro escolas (de diferentes instâncias)...

Consigo pensar numa série de pseudônimos para os professores:Professor - Zumbi (não ouve e nem fala); Professor -solitário (passa finais de semana a fio corrigindo ou preparando atividades); Professor - Hóspede (vai em casa só para dormir); Professor - deixa quieto ( indiferente, empurra com a barriga); Professor Moralmente Doente, = angústia; peso nas costas; dores nos braços e nas mãos; dores de cabeça diárias; insônia; sensação de impotência; medo; fortes presságios sombrios sobre o futuro da educação e, antagonicamente, persistência; otimismo e desejo de mudança.

Vai encarar o concurso? Se vai, te desejo uma excelente prova. Se não vai... Bem, você deve possuir OPÇÕES MELHORES. Quanto a mim, já sofro de todos os "MALES" acima. Então, que venha o futuro. Da educação? Não. Da EXTINÇÃO DA PROFISSÃO DOCENTE DECENTE! Em breve, seremos poucos. Muito poucos e aí sim, vão ter que nos VALORIZAR!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

LER E INTERPRETAR: A QUEM INTERESSA?

POR MARI MONTEIRO






O que você está prestes a ler são palavras IMPACTANTES; sobretudo às Alma sensíveis dos educadores que AINDA ACREDITAM nas possibilidades de aprender a LER e a ESCREVER com propriedade; com o discernimento necessário para não ser manipulado ou ludibriado pelos meios de comunicação ou por qualquer outra forma que exija uma interpretação mais aguçada dos fatos. E não estou falando da “enganação” do clichê: “aprendemos a ler e a escrever durante toda a vida”. ISSO É BALELA! Uma desculpa esfarrapada dos profissionais (há muitas exceções) para justificar a grande soma de alunos que, ao final do QUINTO ANO não leem com fluência e, muito menos, interpretam!


Este artigo é sobre este FINGIMENTO GENERALIZADO que permeia o sistema de ensino brasileiro. Somos uma VERGONHA MUNDIAL no quesito interpretação de texto. Diante disso, as citações e argumentações aqui contidas são dirigidas a nós, professores, porque antes de tudo, NÓS PRECISAMOS GOSTAR DE LER, DE ESCREVER E DE INTERPRETAR... E conheço reinos “não tão distantes” em que os profissionais da educação não leem, não interpretam e tem raiva de quem o faz!


Ser escritor é falar das coisas que sabemos sem saber que o sabemos. Explorar esse saber e compartilhá-lo é um PRAZER: o leitor visita um mundo que é ao mesmo tempo familiar e miraculoso. Quando um escritor toma suas feridas secretas como ponto de partida, outorga grande confiança à humanidade, conscientemente ou não. Minha confiança vem da crença de que todos os seres humanos são SEMELHANTES, que outros carregam feridas parecidas com as minhas e que, portanto, poderão compreender.” (ORHAN, Parmuk)


Quando leio ou escrevo, me distancio do que sou agora. Posso ser ou estar onde eu quiser. Neste suposto refúgio, eu me exponho. Exponho o que, antes, era só meu. Compartilho. Ao compartilhar, mudo de ideia, tropeço em minhas certezas, enxergo outras perspectivas... Vou seguindo, revendo conceitos, revirando gavetas, redecorando meu ser em PERMANENTE CONSTRUÇÃO. Neste sentido, compartilho da ideia de Catherine (texto abaixo):


 “Quando estou muito deprimida, vou ver uma exposição, procurando outra coisa, em outro lugar. Quando o exterior é belo, me imagino bela no interior, é uma espécie de reflexo. Uma coisa bela apaga todo o resto, é um modo de vencer as mesquinharias, as vicissitudes  Eu poderia ficar ali por horas. Estou num mundo de equilíbrio, você respira melhor. Isso me traz muita paz e tenho uma necessidade vital disso. Para minha mãe, era a decoração: ela refazia o tempo todo o seu ‘interior’.”. (Catherine – In. PETIT, Michèle – A arte de ler ou como resistir às adversidades – São Paulo: Ed. 34, 2013).


Ao enxergar todas estas possibilidades, inevitável não pensar nas pessoas que – por inúmeros motivos – foram privados da leitura, da interpretação e da escrita.  Tenho a impressão de que vivem menos intensamente; não por conta do conhecimento intelectual, mas por conta do quanto de ENCANTAMENTO há no fato de ler e de compreender o lido. Isso lhes priva, ainda, de autonomia e cerceia as possibilidades de ascensão social. Conheci algumas pessoas que viveram e morreram sem saber ler e escrever. Pessoas ótimas, de caráter inquestionável, generosas; porém, dependentes de amigos e de familiares para solucionar questões que dependem da leitura e da escrita, o que nem sempre faziam de bom grado. Considero isso TRISTE. Há os que dirão: “são coisas da vida”; “Questão de escolha” etc. Eu não penso assim. Ouso dizer que é uma questão de OPORTUNIDADE!



Lamentavelmente, temos situações muito parecidas acontecendo ao nosso redor. Crianças com seus nove ou dez anos de idade (frequentando a escola!) semi  analfabetas. Diz-me: COMO PODE UM INDIVÍDUO FREQUENTAR AS SALAS DE AULA POR CINCO ANOS E CONTINUAR ANALFABETO OU ALFABETO FUNCIONAL? Não me conformo com coisas assim. Além do mais, creio na questão das oportunidades e nas circunstâncias, mas, creio ainda mais na ”vantagem” que há por detrás daqueles que nasceram e tiveram a oportunidade (não creio em sorte!) de encontrar pessoas que  se (PRE) OCUPARAM com elas, que lhes ofereceram livros e... AFETIVIDADE. Digo isso com certa propriedade, porque encontrei pessoas assim... E isso fez toda diferença na minha vida.

Saliento que acredito na relação entre AFETIVIDADE e APRENDIZADO. Não aprendo quando gritam comigo. Aprendo quando me explicam, educadamente, algo. Não aprendo quando me agridem fisicamente, mas quando me abraçam... Por isso, creio que as palavras abaixo resume a importância desta relação:



“Quando escrevemos, sentimos o mundo se mover, ágil, transbordando de possibilidades, nem um pouco congelado. Enquanto escrevo, mesmo agora, o mundo não se fecha sobre mim, não se torna mais estreito: ele faz gestos de abertura e de FUTURO. Eu escrevo. Imagino. O simples fato de imaginar me dá novamente vida. Não estou nem congelado, nem paralisado diante do PREDADOR. Eu escrevo e percebo que o emprego correto e preciso das palavras é como remédio para uma doença. Um meio de purificar o ar que respiro dos miasmas e das manipulações dos criminosos da linguagem. (...). De repente, não estou mais condenado a essa dicotomia absoluta, falaciosa e sufocante, a essa escolha desumana de ser VÍTIMA ou AGRESSOR sem que haja uma terceira via MAIS HUMANA. Quando escrevo, posso ser humano. (...). Eu escrevo também o que não podemos fazer REVIVER. Escrevo também o INCONSOLÁVEL. (...). Ponho o dedo n aferida e no luto como se toca com as mãos nuas a corrente elétrica e, entretanto, NÃO MORRO. (...)”. (David Grossman – Conferência no Pen Club, 29 de abril de 2007. Grossman escreveu essa conferência após seu filho ter sido morto durante a última guerra no Líbano).

Enfim, se me perguntarem hoje o que quero fazer para contribuir com a qualidade do ensino, responderei: “QUERO PROMOVER ENCONTROS AFETIVOS.” Pois os conteúdos estão todos ao alcance de um click. E eu?  Eu também uso o Google em momentos de dúvida; mas sou MUITO MAIS que uma máquina programada para dar respostas. Prefiro instigar: argumentações, questionamentos, curiosidades, sonhos e desejos. E isso o Google nunca fará. Morra de inveja seu buscador de uma figa! Mesmo porque você (o Google) JAMAIS terá um ENCONTRO AFETIVO com outro buscador. Enquanto eu e meus colegas educadores (ou não... Sei  lá, às vezes, penso que todo mundo é educador) temos a oportunidade de fazer isso todos os dias.

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