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EDUCAR É, ANTES, SENTIR... E TODOS SÃO CAPAZES DISSO.

domingo, 20 de abril de 2014

“ MINHA VIDA MEIO INVENTADA” ("MY LIFE THROUGH INVENTED")

POR MARI MONTEIRO



Ao acaso, me lembrei de todas AS DORES DESNECESSÁRIAS que senti. Desnecessárias agora. No momento, me pareciam a única e até a justa alternativa. Mas, o melhor desta vida é que podemos APRENDER com o tempo e com a vivência.  A propósito, tudo para mim é passível de aprendizado. E, nisso, aprendi também a inventar outra vida pra mim.

Lembro-me dos sapatos apertados que calcei. Que dor terrível! Isso ocorria ora por não ter outro; ora porque a ocasião pedia... Aprendi a dizer: "DANE - SE A CONVENÇÃO" . Não se assuste quando olhar para o lado e se deparar comigo caminhando a pé - em qualquer lugar aberto ou fechado – segurando um par de sapatos. Não ligo a mínima... Essa dor eu não sinto mais.


Lembro – me do medo de apanhar sem saber nem o porquê. Sofria duas vezes: a agonia da antecipação e a dor física. Hoje, em sã consciência, NÃO ME BATEM MAIS. Essa certeza já me livrou da agonia. E, se acontecer, terá sido por alguém desconhecido, sem valor algum para mim.

Ainda sinto algumas dores e medos. Estou viva! Não aprendi a ser imune. Mas, ter consciência de que são em menor número e menor intensidade, me permite compreender que cresci e aprendi. Todas as dores e medos me foram muito úteis. Sou mais tolerante hoje. Mais paciente... Não que eu as tivesse merecido todas; mas talvez eu não fosse a pessoa que sou se não tivesse enfrentado as situações. NADA AINDA ME MATOU.

Das cicatrizes, a gente não se livra facilmente. Mas, daquilo que antes fora tão ruim ponto de fazer sofrer... A gente vai se livrando pelo caminho... E não é que a gente amanheça diferente. É lentamente... Muito lentamente aprendo a decidir quando me calo e quando falo. Mais uma coisinha sobre isso: SINTA-SE IMPORTANTE ENQUANTO EU FALAR COM VOCÊ! Quando eu me calar, terei lhe esquecido.

Talvez; por isso tudo, eu (ou uma grande parte de mim) viva, hoje, numa vida inventada... Que mal isso pode fazer? Melhor seria ver e viver somente da dura e áspera realidade que nos cerca? Não aguentaria. PRECISO SABER QUE NÃO É APENAS ISSO! Preciso crer em dias melhores; pessoas melhores; em uma “Mari” melhor...



Na minha vida “meio inventada” existem dias serenos; a morte está distante; as pessoas que amo são eternas; não há gritos; não há fome; há coragem; há saúde; há trabalho  e salário justos para todos; há olhares demorados e abraços macios... HÁ PESSOAS.

Na minha vida “meio inventada”, sobra tempo para SER; para SENTIR; para OUVIR; para CONVERSAR...  Diz: Na vida real, que tempo nos sobra PRA VIVER! VI – VER e não apenas sobreviver? Na minha vida “meio inventada”, tudo é INTEIRO e INTENSO. Se alguém me perguntar se passo o tempo todo na minha vida “meio inventada”, a resposta é NÃO. Seria impossível. Há sempre algo que me traz de volta: um grito; o relógio; a correria; as ocupações e as preocupações. Mas, volto sempre para ela e lá descanso.



Por fim, preciso dizer: não estou NUNCA SOZINHA na minha vida “meio inventada”. Muitas pessoas, nem sonham, mas estão sempre lá comigo. Por vezes, eu as levo; por vezes, elas me levam. Importa que, nestes momentos, ainda que breves, VIVEMOS PLENAMENTE e absorvemos o suficiente do que é “do bem” e “da luz” para continuar a VIDA REAL. Se me achar louca, não me importarei. Essa conversa é mesmo surreal; mas, acredite: TODAS AS POSSIBILIDADES SÃO REAIS NA MINHA VIDA “MEIO INVENTADA”.



sexta-feira, 11 de abril de 2014

ALMA QUE TE QUERO VER... (SOUL THAT YOU WANT TO SEE ...)

POR MARI MONTEIRO



(...) Artigo iniciado em 26/03/2014.


O que espero, de verdade, é que após ler este artigo (assim como eu ao revisitá-lo) SEJAMOS MAIS SABEDORES DE NÓS MESMOS. Muito crédito à escrita? Pode ser! “SQN”. Trata-se do desejo de que sejamos REVIRADOS DO AVESSO diante de um espelho que possa refletir a nossa ALMA. Consegue visualizar esta imagem? Forte? Sim. PROVOCANTE? Também.


Estive pensando e seria muito egoísmo meu pensar sobre isso sozinha: O MEU AVESSO; prefiro NOSSO AVESSO. Se nós consideramos difícil olhar no espelho e fitar os próprios olhos por algum tempo, na tentativa de encontrar-se consigo mesmo, imagine tentar ENXERGAR POR DENTRO.


A propósito, O QUE SOMOS POR DENTRO? Órgãos, células; água; sangue; vísceras?  Sinceramente, e sem subestimar, anatomia é o que menos interessa nesse momento. A maioria de nós possui conhecimentos básicos a este respeito.


Falo da ALMA; do ESPÍRITO; da ESSÊNCIA ou outra denominação equivalente. Por uma questão de entendimento, a denominação usada neste artigo, para me referir ao NOSSO LADO DE DENTRO, será ALMA. A principal questão é: podemos enxergar a própria alma? E se nós pudéssemos como ela seria? De que cor seria? Qual sua forma?


Convido você a conjecturar. Caso fosse possível fotografar a própria alma, o que veríamos? Paro para pensar. As sensações e imagens que me vem à mente são muito diversas e adversas. Meus questionamentos e devaneios serão registrados neste artigo. Porém, isso não levará a NADA se a troca não for possível. Uma conversa é necessária. Precisamos SABER UNS SOBRE OS OUTROS.  Então, sugiro que este artigo dê origem a um “FÓRUM” para que possamos prosear e – quiçá – nos conhecer melhor.


(...) 29/03/2014


O Dicionário Priberam de Língua Portuguesa traz 23 possíveis definições de alma:
1. Parte imortal do ser humano.
2. Pessoa, indivíduo.
3. Habitante.
4. Índole.
5. Vida.
6. Consciência.
7. Espírito.
8. Agente, motor principal; o que dá força e vivacidade.
9. Essência, fundamento.
10. Entusiasmo, calor.
11. Ânimo, coragem, valor.
12. Ente querido.
13. Interior da arma de fogo.
14  Peça de madeira no interior do violino.
15. Parte bicôncava do carril entre a cabeça e a patilha.
16. Pedaço de cabedal entre a sola e a palmilha de um sapato.
17. Pedaço de sola que fortalece o enfranque do calçado.
18. Válvula do fole.
19. O vão entre o calcanhar e o joanete.
20. O vão da maçaroca, do novelo, etc.
21. Chancela ou sinete de carta.
22. Mote de divisa.
23. Peça interior do botão coberto.

"alma", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/alma [consultado em 10-04-2014].

Confesso que estas definições me são muito familiares; mas me detive apenas até a 12ª, talvez, porque estas me soaram mais “HUMANAS”. Mas nada me intriga mais do que a sinopse do filme “21 GRAMAS”, dirigido por  Alejandro González Iñárritu e com um elenco respeitável (RE –CO –MEN –DO).   Eis a sinopse: “Três pessoas, Paul (Sean Penn), Jack (Benicio Del Toro) e Cristina (Naomi Watts), têm seus destinos cruzados em função de um acidente. A partir dele serão testados os limites do amor e da vingança, assim como a promessa da redenção. Vinte e um gramas é o peso que uma pessoa perde no momento da morte. É o peso carregado pelos que sobrevivem.” (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-47795).


A primeira coisa que me vem à mente é: caso eu pudesse ENXERGAR MINHA ALMA, será que me alegraria com a visão? Penso isso porque há dias nos quais sinto medo até do meu “reflexo físico” no espelho. Imagine, num dia destes, enxergar minha alma.


Independentemente do significado técnico-científico ou religioso, vejo minha alma como uma névoa que se adapta (ou não!) ao meu corpo de acordo com o que digo, penso ou faço. Como a névoa é algo volátil e, como tal, muda não apenas de forma, mas também de cor e densidade. Por exemplo, neste momento, escrevo tensa, minha cabeça pesa e dói. Estou irritada e cansada. Penso que minha alma esteja pesada e opaca. ESTÁ UM DESASSOSSEGO SÓ!


(...) 31/03/2014 


Confesso que este é o artigo mais demorado e fragmentado que já escrevi. Fiz várias pausas. Todas as vezes que minha alma se calou, parei. Todos nós temos vez ou outra, bloqueios para escrever. Mas, neste caso, é diferente. É quase UMA NEGAÇÃO. É um não querer. Mais que isso: cada pausa que faço representa uma espécie de impedimento. Estas pausas longas me fazem pensar o seguinte: OBEDEÇO MINHA ALMA. E, por que digo minha alma e não meu cérebro? Porque, se fosse um ato exclusivamente racional (usasse apenas meu cérebro em nome da razão), eu continuaria escrevendo...


(...) 04/04/2014


Cada vez que volto de uma pausa, releio tudo que foi escrito. A caneta pesa. Há muitas rasuras nos meus manuscritos (escrevo muito à mão). Aí me lembro de algo que digo sempre aos meus alunos: “Façam sempre rascunhos. Escrevam, antes, com a ALMA. Depois, revisem com a RAZÃO.” Não sei por que motivo, com este artigo, isso não está funcionando. Há dias escrevo e pareço não ter encontrado ainda o “fio da meada”. Isso me incomoda... Nunca havia experimentado isso antes. Meus pensamentos e manuscritos sempre fluem. Os bloqueios que já tive até então foram breves e, quando retomava a escrita, o pensamento corria mais rápido que meus dedos...


(...) 06/04/2014


Devido ao tempo das pausas, a cada vez que retomei este artigo, me sentia de um jeito único. Isso dever ter sido um aspecto positivo, pois comecei a perceber que, a cada retomada, tentava enxergar a forma da minha alma. Nesta altura da escrita, as pausas já não me incomodam mais. Elas tinham uma razão de ser. Porém, foi necessária muita abstração para perceber os POSSÍVEIS DESENHOS DA MINHA ALMA. Quando estava feliz, enxerguei minha alma transparente, pude ver através dela e ela tinha o formato exato do meu corpo. Quando estava insegura, vi minha alma trêmula. Quando estava apaixonada, vi minha alma colorida e efusiva, ultrapassava os contornos do meu corpo. Quando estava cansada, vi minha alma disforme e escura, uma escuridão que cercava meu ser...

ALMA (Arnaldo Antunes)

“Alma, 
deixa eu ver sua alma
A epiderme da alma,
superfície.

Alma, 
deixa eu tocar sua alma
Com a superfície da palma,da minha mão, 
superfície (...)

Alma, 
isso do medo se acalma
Isso de sede se aplaca
Todo pesar 
não existe
Alma, 
como um reflexo na água
Sobre a última camada
Que fica na superfície, (...).

Abra a sua válvula agora
A sua cápsula alma
Flutua na 
superfície lisa, que me alisa, seu suor
O sal que sai do sol, da superfície
Simples, devagar, simples,
bem de leve a alma já pousou, na superfície.”.


(...) Algumas horas depois...


Foram tantas as nuances vistas. Tenho ciência de que tudo foi subjetivo: as cores; as formas; as sensações. Ocorre-me que, talvez, não haja outra maneira de enxergar a alma. E, se assim for, muito do que NÃO É ESSÊNCIA perde ainda mais seu VALOR. Nenhuma roupa, por mais cara que seja, é capaz de colorir uma alma triste. Nenhuma maquiagem, por mais que disfarce as imperfeições e ilumine a face, não é capaz de iluminar uma alma que está na escuridão.


(...) 09/04/2014


Neste retorno, minha alma quer parar de “pensar” sobre si mesma. Aquela curiosidade do início do artigo abrandou. Não sei você, mas eu não me esforçarei mais para tentar enxergar nossas almas. Pelo menos não como fiz comigo. Descobri que minha alma NUNCA É A MESMA e mutante que é sempre me surpreenderá; assim como, a alma do outro. Contudo, prestarei mais atenção AOS SENTIMENTOS DO OUTRO e; sobretudo, AOS MEUS SENTIMENTOS.


(...) 10/04/2014


Parando por aqui, para mim, fica valendo o antigo preceito de que “os olhos são as janelas da alma.” Este par de olhos delatores... Somos capazes de fingir com todas as partes do corpo: um riso forçado; um gesto para disfarçar um embaraço... Mas os olhos tem vontade própria. Assim como piscamos sem nos darmos conta disso, eles REVELAM a alma. É através deles que a alma se apresenta. QUEM CONSEGUE POR DE VOLTA A LÁGRIMA DERRAMADA? Ou esconder as marcas de expressão que encolhem nossos olhos quando rimos? Nesses momentos quem fala é alma que, bem lá do fundo, estará sempre a nos fitar como quem se deslumbra com uma imensa vitrine. De que? Daquilo que escolhemos ter por perto.


Mari Monteiro (Outono, 2014)

domingo, 30 de março de 2014

A FALTA DE EDUCAÇÃO NA EDUCAÇÃO (EDUCATION OF MISSING IN EDUCATION)

POR MARI MONTEIRO


Notícias e bibliografias sobre a indisciplina e a falta de educação dos alunos não faltam. Contudo, me surpreendi quando procurei algo relacionado à FALTA DE EDUCAÇÃO e à INDISCIPLINA DO PROFESSOR em relação aos alunos; aos  seus pares e aos seus superiores. Supostamente, adultos que somos, deveríamos ser mais contidos; falar baixo; pregar a tal “ESCUTÓRIA” (termo este que credito a Rubem Alves); manter o respeito... bla, bla, blá...  Isso, na prática, não acontece. E, pior, aumenta com o tempo. Tenho medo que seja contagioso. 


Infelizmente, pude presenciar esse tipo de comportamento em TODOS os lugares em que me relacionei com professores na vida. Em todos os locais e situações, a MINORIA é educada. E a maioria não aprendeu ou não tem paciência para ouvir. Só quer falar (ou gritar...). Não é fácil constatar isso; bem como, não é fácil EXPRESSAR esta situação.  Além disso, estou ciente de que essa minha assunção desagradará muitas pessoas. Porém, tenho certeza, não será ninguém que me conheça de fato. Porque quem me conhece sabe que o que para na garganta me adoece. Então eu digo. Então eu pago o preço.

Contudo, tenho plena tranquilidade no que se refere a minha CONDUTA DOCENTE. Por muitas vezes, meus alunos me viram triste; calada; indignada... E, na maioria das vezes, tratavam-se de coisas que pude dividir com eles... Logo, sabiam que não eram eles os "causadores" do meu  estado. Agora, gritar com alunos; colegas professores e superiores é algo que NUNCA EXPERIMENTEI. E isso é algo que me confere certo crédito para tocar neste assunto...

Sei que o título, a princípio, pode parecer AGRESSIVO. É intencional.  A “agressividade” contida no título não chega a representar legitimamente a sensação de ser agredido (a) no meio educacional. Não que em outros ambientes a falta de educação seja aceitável; mas, no meio educacional, é DESCABIDA e VERGONHOSA!



De agora em diante, esclareço: FALO POR MIM. TÃO SOMENTE POR MIM. Minha fundamentação? Anos a fio frequentando ambientes educacionais (escolas privadas; universidades; escolas estaduais; escolas municipais; reuniões pedagógicas; cursos de formação etc.) Esclareço também que – em nenhum momento – minha intenção é generalizar. Por outro lado, também não serei tão pontual assim. Desnecessário. O teor deste artigo é INQUIETANTE por si só. Cada leitor, com base na sua vivência profissional e com um OLHAR CRÍTICO, poderá autenticar ou não minhas constatações e considerações.


Falo especificamente da EDUCAÇÃO (ou da falta dela) DO EDUCADOR. É necessário, antes, observar a distinção entre TOM DE VOZ e GRITOS. Há professores que possuem, naturalmente, um tom de voz alto. E, justamente por ser natural, não agride. A voz é alta, forte e firme, mas não é agressiva. Apenas este fator não caracteriza um professor mal educado.

Por outro lado, o professor mal educado é aquele que grita. Uma característica marcante deste professor é o fato de ele confundir INDISCIPLINA com LIBERDADE DE EXPRESSÃO ou com a alegria do aluno. Percebo que, nestes casos, o descontentamento (no sentido mais amplo  da palavra) está muito relacionado à falta de educação e, consequentemente, aos gritos. Isso porque distanciar-se da vida pessoal e trabalhar com seres humanos, com diferente shistórias, diferentes perfis... E não “misturar” as coisas, são ações extremamente difíceis. Não esqueçamos aqui que, antes de ser professores, SOMOS HUMANOS: sentimos dores, frio, frustrações, medo, raiva, insegurança...

O ato de “falar alto” em sala de aula se torna uma espécie de circulo vicioso: o professor fala alto porque o aluno fala alto e cada vez mais alto. SE O PROFESSOR GRITA, O ALUNO NÃO PRECISA “SE ESFORÇAR” PARA OUVI-LO. Soma-se a isso uma troca de energia muito ruim. Entre os gritos de todos, que – em determinado ponto – nem “sentem” que gritam, cria-se uma atmosfera DENSA e TENSA.

E as FISIONOMIAS? Observem. Existe um grande número de professores que já possui o rosto moldado pela “BRABEZA” (como diria minha avozinha). Já cheguei a fazer um teste comigo mesma e sugiro que façam. Fiquei em frente a um espelho e fiz de conta que estava dando uma bronca daquelas nos meus alunos. Fiz, inclusive, aquela famosa pose (a propósito viciante, chega a virar TOC!) de tentar, EM VÃO, claro, controlar uma situação de indisciplina apenas com expressões faciais. Meu Deus! Pensei: “QUE PESSOA HORRÍVEL EU SOU! QUANTAS RUGAS!”.


Neste dia, TIVE MEDO DE MIM... Quero “desmanchar” a cara fechada; descontrair lábios e olhos; falar manso. Quero CONVERSAR com meus alunos, com meus pares, com meus superiores... E, claro, isso refletirá na minha vida pessoal e vice-versa.

VISÃO ROMANTIZADA A MINHA SOBRE EDUCAÇÃO? Sim. Eu sou romântica. Não quero me tornar pedra. Não tenho no meu guarda- roupa uma máscara para cada situação. Além disso, penso que ficar "trocando de máscaras" dá muito trabalho. Resta, então, vigiar. Sorrir deve ser um hábito e não uma exceção. Quero cumprimentar e ser cumprimentada. Pense. Não é pedir muito. Basta um ESPELHO e uma boa dose de CORAGEM para ser PROFESSOR sem se deixar contaminar pelo “vírus” do mal humor... Quero um rosto e não uma carranca.

NESTE CASO, ENTENDAMOS A EDUCAÇÃO, NO SENTIDO MAIS AMPLO DA PALAVRA: NAS ESCOLAS; NAS REPARTIÇÕES PÚBLICAS EM GERAL; NO ÔNIBUS; NAS FILAS; NAS RELAÇÕES MÉDICO - PACIENTE... ENFIM, SOMENTE UMA EDUCAÇÃO "GERAL" MUDA AS CIRCUNSTÂNCIAS.



quarta-feira, 26 de março de 2014

MUSILHANDO: RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE MÚSICA E INTERPRETAÇÃO

POR MARI MONTEIRO

Truman Capote (1924-1984): escritor norte americano que escreveu seu primeiro conto aos dez anos de idade; aos onze, começou a escrever durante três horas continuamente.

“Para que o aluno elabore boas respostas, as questões devem ser provocadoras.” (Mari Monteiro).


Para obter uma participação significativa dos alunos e respostas bem elaboradas, é preciso fazer boas perguntas; é preciso contar com um bom “conteúdo” e/ou recurso. Há tempos uso LETRAS DE MÚSICA para ensinar e para aprender. E como aprendo! Meu principal objetivo é, através de determinadas letras, PROVOCAR o aluno; chamá-lo para a “briga”, no sentido de fazer com que ele argumente e exponha seus sentimentos e seus pontos de vista.

Neste caso específico, o contexto se refere à análise e audição de três letras de músicas da banda Legião Urbana, previamente selecionadas de acordo com o suposto nível de maturidade de cada turma. Considerando que as composições de Renato Russo são atemporais, outro critério de seleção foi o grau de intensidade de cada letra. Diante disso, as letras trabalhadas foram: “TEMPO PERDIDO” (1º EM); “TEATRO DOS VAMPIROS” (2º EM) e “METAL CONTRA AS NUVENS” (3º EM).

Impressionante como cada turma apresentou diferentes reações às músicas e às questões propostas. No 1º ano do Ensino Médio, por exemplo, os alunos quiseram manusear a capa do CD para ver os títulos das demais músicas. Pediram para ouvir faixas que alguns já conheciam e acabaram ouvindo parcialmente todas as músicas do CD. Particularmente, considerei este momento um aprova do quanto a GERAÇÃO DIGITAL está carente de boas composições.

No 2º ano do Ensino Médio, a maioria dos alunos demonstrou uma grande preocupação com o ENTENDIMENTO DOS ENUNCIADOS; provavelmente porque tivemos apenas uma aula e; por isso, pedi que concluíssem em casa.

No 3º ano do Ensino Médio, os alunos quiseram ouvir os dois CDs inteiros e – como perceberam que não daria tempo – resolveram “pular” alguns trechos. O interesse demonstrado foi gratificante. A maioria dos alunos quis conversar mais profundamente sobre determinadas questões.


Mas nada. ABSOLUTAMENTE NADA, se compara ao fato mais marcante deste dia. Um dos meus alunos do Ensino Médio (obviamente, preservarei sua identidade) me parou no corredor e disse: “Professora, posso te dar um abraço?”. Foi um abraço fraternal. A princípio, não associei o abraço às atividades com música. Foi quando a pessoa me disse que era incrível como eu conseguia (ATRAVÉS DA MÚSICA) “tirar” as coisas de dentro dela. Nesse momento, houve choro. Um choro de alívio. E abraço, agora em forma de gratidão, é parte das coisas MAIS SIGNIFICATIVAS que já aconteceram na minha carreira. Fiquei feliz por mim, atingi meu objetivo. E, mais feliz ainda, pela pessoa que, tenho certeza, se “LIBERTOU” de algumas amarras invisíveis que a prendiam.

Enfim, diante do significado desta atividade PARA MIM E PARA OS ALUNOS (como eles me ensinam e me mantém “antenada”... Ouso dizer que, se dermos as costas para o que nossos alunos têm a dizer NOS TORNAREMOS JURÁSSICOS NA VELOCIDADE DA LUZ rsrs), seguem algumas considerações registradas por eles acerca das letras interpretadas. Ah!!! E, nos dias que se seguiram, pude ler várias postagens no Face, feitas pelos alunos, alusivas a trechos das letras trabalhadas na sala de aula... ISSO É BOM DEMAIS! Rsrsrsrs



► PRIMEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO: “TEMPO PERDIDO” - QUESTÃO DESENVOLVIDA: De acordo com sua VIVÊNCIA, o que significa perder tempo?

- “Perder tempo, para mim, é quando você não aproveita a vida como deve ser aproveitada. E nunca se arrependa dos seus atos!” (João Leonardo)

- “Não fazer o que você deseja não se expressar, não falar, não se defender na hora necessária e, principalmente, não fazer o que deveria ser feito na hora certa.” (Mariana Alves)

- “Perder tempo é não fazer o que tem que fazer como eu que perdi um ano da escola e agora vejo o que perdi.” (Thiago Laureano)

- “Perder tempo significa que o que podemos fazer hoje, não podemos deixar para amanhã; porque amanhã é outro dia e não sabemos o que pode acontecer. Perder tempo para quê? Temos tão pouco tempo.” (Milena Caetano)



- “Eu acredito que é não fazer nada, não dedicar seu tempo a alguma coisa ou, por exemplo, perder seu tempo discutindo com alguém que não valha a pena”. (Nathalia Ramos)

- “Perder tempo significa deixar para depois, deixar de falar as coisas que estou pensando a respeito de outra pessoa. Sendo bom ou ruim, é preciso falar na hora certa”. (Victor vallim)

- “Perder tempo com algo sem importância, sem valor que não vai te acrescentar em nada. Perder tempo também pode ser não fazer nada: tempo vazio; tempo perdido. Mas sempre é tempo de mudar.” (Rafaela Cruz)

- “Perder tempo é fazer algo contra vontade, mal feito, algo desnecessário ou deixar de fazer algo e cair no arrependimento, perdendo um tempo que não volta atrás.” (Vitória Oliveira)

- “É fazer algo que não gosto de fazer e faço ou ficar parado.” (Alexandre Placido)

- “Perder tempo significa que deixei de fazer alguma coisa e até mesmo deixar de falar alguma coisa que deveria ter sido dita.” (Wellington Vieira)

- “É fazer alguma coisa que não usarei no meu futuro. Exemplo: você faz quatro anos de faculdade; mas aí você percebe que não era aquilo que você queria.” (Lucas de Góis)

- “É estar com vontade de fazer algo e não fazer por receio de alguma coisa. Não somos imortais. Então, vamos viver sem perder tempo, antes que a vida termine.” (Larissa Silva)

- “Para mim, perder tempo é ficar fazendo coisas inúteis, como passar a tarde inteira no computador ou fazer coisas que não gosto e não vão acrescentar em nada no meu futuro.” (Johnny Ayslan)

- “É lavar a louça e não ir secando e guardando; pedir pra pessoa ajudar e ela ficar enrolando... E você continua pedindo.” (Letícia Andrade)





► SEGUNDO ANO DO ENSINO MÉDIO: “TEATRO DOS VAMPIROS” - QUESTÃO DESENVOLVIDA: Releia a sétima estrofe e elabore um comentário crítico sobre o último verso: “(...) Voltamos a viver / Como a dez anos atrás / E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas. (...)” :


“A cada dia que passa as pessoas valorizam o ‘TER’. Querem sempre algo inovador, por exemplo, comprar um celular bom. Depois de dois anos, é preciso ter um bem melhor. Por isso, estamos “envelhecendo dez semanas”, as coisas se tornam ultrapassadas rápido demais. Nunca temos o suficiente.” (Giovanna Cristina de Oliveira)

“Apesar das dificuldades, ele espera que um dia possa se encontrar e viver com quem ama... Não importando o tempo que leve para isso e o tanto que envelheça de tanto sofrer.” (Marcos Vinicius)

“O último verso trata das coisas que envelhecem rápido demais, que são ultrapassadas com frequência. O mundo está avançando tão rápido que ‘a cada hora que passa as coisas vão envelhecendo’, e as pessoas também.” (Henrique Morroni)

“Com esse verso, o autor quis dizer que temos que aproveitar a vida, amar, respeitar, conviver em harmonia, pois a vida acaba muito rapidamente, em um piscar de olhos.” (Guilherme Martins)

“O tempo está passando cada vez mais rápido e nós não estamos fazendo quase nada. O tempo é precioso em nossas vidas e o autor tinha esperança que reencontraria seu amor. Enfim, eles teriam uma vida de paz e de tranquilidade... Seriam felizes para sempre.” (Higor Augustus)


“Quando ele diz: ‘ E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas’, ele quer dizer que o tempo não para; que quando percebemos, já passou muito mais tempo do que pensávamos. Ele está correto; afinal, a gente acaba fazendo a maioria das coisas sem perceber.” (Agatha Fernandes)

“Ele quis dizer que o nosso tempo é curto demais e, quando percebemos, já não estamos mais aqui.” (Jéssica Henriques)

“Estamos retrocedendo no tempo, pois nós não estamos dando oportunidades para novas ideias e, assim, ficamos presos ao passado.” (Fernando Silveira)

“O tempo passa e nada muda. Uma dessas questões é a evolução, onde todos querem tudo feito, o mais rápido possível, e acabam empacando na evolução daquilo que realmente interessa.” (Fabio Constantino)

“De acordo com o verso, o autor sofreu tanto em determinado tempo que parece que passou muito tempo; quando na verdade, passou ‘pouco’ tempo.” (Yasmim Cavalieri)

“O autor quis dizer que a cada hora que passa ele sofre mais; nunca está contente com o que faz porque sente um grande ‘vazio’.” (Gabriel Mantelato)

“As pessoas vem envelhecendo cada vez mais rápido, como ele diz, devido às horas ruins que passamos o que deixa certo desgaste, fazendo parecer que mais do que uma hora de tão longo que é o sofrimento... Uma hora parece com semanas.” (Marcelo Tadeu)

“A cada hora que passa, ele sofre mais. Ele se desgasta a ponto de parecer que se passaram dez semanas. O fato de sofrermos nos destrói rapidamente e em demasiado.” (Laísa Nascimento)

“O último verso afirma que o tempo passa rápido demais e; por isso, envelhecemos muito mais... A cada ano, tudo muda muito rápido e algumas coisas não fazem mais sentido.” (Beatriz Morroni)

“Por ele não ter motivos de alegria, acaba sentindo como se estivesse envelhecendo rápido demais. É como se nada na vida dele mudasse em dez anos.” (Mylena A. Cordeiro)

“Antigamente, as coisas eram mais simples. As pessoas conseguiam se divertir mais e não existiam tantos crimes com hoje em dia. Concordo com o pensamento do autor no último verso, pois quando nos divertimos, temos a sensação de que o tempo passa mais rápido. Porém, precisamos estar sempre alertas, com medo... Enfim, ainda é possível aproveitar a vida hoje em dia, mas com muito mais cuidado e atenção.” (Nicolas Magalhães)



►TERCEIRO  ANO DO ENSINO MÉDIO: “Metal contra as nuvens” - QUESTÃO DESENVOLVIDA: Relacione os versos: “E há quem se alimente do que é roubo? Mas vou guardar o meu tesouro / caso você esteja mentindo” Com o sentimento e com a necessidade de proteção:

“O autor afirma que as pessoas deixam seus ‘tesouros’ à mostra e as outras pessoas roubam. No caso, o eu lírico protege o seu para não ser enganado e roubado.” (Vitor Teló)

“Não é possível deixar livre o que se tem para ser ‘roubado’, enganado e acabar perdendo uma parte de si mesmo e se decepcionar.” (Eliel M.)

“A necessidade de proteção refere ao fato de que a gente vive de mentiras; coisas falsas e, por isso, devemos guardar nossos ‘tesouros’ (creio que nosso coração, nosso amor...). Todos nós precisamos de proteção, não no sentido de estarmos seguros; mas, sim, de proteção da nossa alma contra coisas ruins, pensamentos negativos. Precisamos de algo ou de alguém que nos proteja desse tipo de coisa.” (Victor Marques)
“Ele sente a necessidade de proteger o amor que sente por alguém, deixando esse amor guardado caso a pessoa amada esteja mentindo ou não tenha um sentimento recíproco por ele. Entendo que ele prefere proteger este sentimento para não se machucar emocionalmente.” (Júlia Toledo)

“O eu lírico quer relatar que existem aqueles que exploram o seu semelhante através de comportamentos falsos, aproveitando-se da carência sentimental do outro. Então, ele vai se cuidar para não ser enganado sentimentalmente por alguém.” (Thalita França)

“Há pessoas que vivem se alimentando da dor, dos sentimentos e dos segredos dos outros e esse é o tesouro de cada um. E esses “ladrões” são como as pessoas que enganam, mentem magoam e é verdade que o eu – lírico quer esconder seu tesouro, guardando somente para si o que sente.” (Valéria)



“Ao ler esses versos, compreendi que há pessoas que se alimentam de coisas ruins e vivem para praticar o mal para o próximo. Por este motivo, o eu – lírico quer preservar seu tesouro (que é seu coração), dessas pessoas que mentem e que iludem.” (Bianca Rosário)

“Quando chegamos nestes versos, depende muito da interpretação e da condição emocional de cada um. Em minha opinião, a pessoa poderia mentir para ele e ele quase acreditar. Dois versos depois, ele fala; ‘E por honra, se existe verdade / Existem os tolos e existe o ladrão’, é quando eu entendo que ele se refere a certa quantidade de pessoas, possivelmente uma crítica à política e à sociedade em geral. Nos dois últimos versos, ele volta  a falar da pessoa que ele pode estar amando; nessa parte ele menciona um tesouro que ele vai deixar guardado. Creio que não são bens materiais; mas, sentimentos. Porque, no  começo e no fim da música, ele se refere a sentimentos por alguém e, caso a pessoa estivesse mentindo, ela nunca mais saberias de seus sentimentos, pois ele os deixaria guardados.” (Caio Ferreira)

“Nem sempre confiamos na pessoa certa, que pode se alimentar de nossa confiança em seu próprio benefício. Então, ele guarda sua esperança de modo que o faça se sentir mais seguro, dando mais ênfase para a possibilidade de mentiras. Um bom exemplo são os políticos que atuam como ‘ladrões’ com o objetivo de roubar e de se alimentar da confiança dos outros, geralmente para suprir as próprias ‘necessidades’. Mas, mesmo assim, eles nos passam uma lição de vida: não devemos confiar em todos.” (Leonardo Rinaldi)

“O eu – lírico tem consciência de que há muitas pessoas não confiáveis e também aqueles que sobrevivem de tudo o que é roubo; por isso, ele procura proteger seus tesouros a ferro e fogo. O eu lírico sabe que, em muitos momentos da vida, não se pode confiar em ninguém. Afinal, há muitas pessoas que se aproximam dos outros por interesse e com ‘objetivos negativos’.” (Maria Luiza Menezes)

“Collor, presidente da época, com seu rosto e palavras simpáticos, fez com que todos acreditassem que ele seria ‘O’ Presidente. Mas ficou provado que não era bem assim. Quando todos deram por conta e viram que ‘QUASE’ acreditaram que o rosto e as palavras poderiam mudar algo... e não lhes tomar o que era de direito. Eis então a parte em que ele dá a resposta: ‘Existem os tolos / E existe o ladrão’. Os tolos votam e o ladrão rouba o que é de todos, se alimenta e vive do que é roubo. E, como há os que não confiam nesse ladrão disfarçado de ‘boa índole’, guardam seus tesouros próprios, caso ele (o político) esteja mentindo mais uma vez.” (Vinícius Moreira)

“O eu – lírico diz que essas pessoas são aquelas que se alimentam das suas dores e das dores do outro. E que sofre em nome dos seus segredos e pela proteção deles. Entendo que se trata de alguém ‘machucado’ e que não quer se machucar mais.” (Simone)

“Quando ele diz que as pessoas se alimentam de roubo e que ele vai guardar o tesouro dele, está se referindo aos sentimentos para com as pessoas. Pois as pessoas, muitas vezes, se aproveitam da nobreza das outras e da boa vontade para tirar proveito de algo. Hoje em dia, isso é tão comum... O difícil mesmo é  encontrar alguém que nos ame de verdade, mão apenas pelo que  agente tem, mas pelo que  agente é. Sabemos que o ser humano é falho, mas uma coisa que não podemos ter são falhas em nosso caráter. A pior coisa que alguém pode ter é seu caráter corrompido, é como se um aparte da alma da pessoa se apagasse.  Quando o autor diz: ‘caso você esteja mentindo’, mão o culpo por isso., pois esta foi uma forma que encontrou para se proteger desse mundo tão impuro e com pessoas tão más de coração e de alma.” (Leticia Barbosa)






segunda-feira, 17 de março de 2014

ESCREVA – ME SOBRE AQUILO QUE VOCÊ GOSTARIA DE ESCREVER (WRITE - ME ABOUT WHAT YOU WOULD LIKE TO WRITE)

POR MARI MONTEIRO

"Mulher lendo" - Iman Leke

Costumo dizer aos meus alunos que, quando preparo uma atividade  avaliativa, cujos conteúdos independem da memorização de conteúdos, eles sempre terão boas surpresas. É o caso desta atividade.  Faço isso como PROVOCAÇÃO para que possam exercitar o ato de pensar. De um modo geral, isso resulta em perguntas como: “Cadê a resposta?”; “Mas Mari, isso não está no texto.” Quando estas perguntas começam a pipocar na classe, sei que alcancei meus objetivos. Isso porque se não está no texto, não existe. Não se tem o HÁBITO DE PENSAR; não se desenvolve no aluno a capacidade de “ler” a INTENCIONALIDADE DO AUTOR.  Então, já não conseguimos mais responder com nossos “pensamentos e argumentos”. Só sabemos escrever aquilo que outros autores já escreveram;  a partir daquilo que já foi pensado.

Diante disso, sempre elaboro, além das questões de “praxe”, questões que  exijam que eles pensem sobre o ato de ler. Neste caso, trata-se da última questão da prova. Fiz com eles mais ou menos o que Rubem Alves e seus colegas fizeram com os candidatos ao doutorado. Eu lhes pedi: “ESCREVA-ME SOBRE AQUILO QUE VOCÊ GOSTARIA DE ESCREVER.”

Não me lembro de um avaliação tão longa. Sobretudo, no que se refere à elaboração da resposta da referida questão. Eles se queixavam que foram sido pegos de surpresa; que tinha muita coisa da qual eles gostam, mas que não sabiam como começar... A maioria dos alunos levou cerca de três aulas para concluir  a prova. Isso não me importa muito. Afinal, eles estão sendo DESAFIADOS. Isso não pé fácil. Além disso, tenho plena consciência do quanto é difícil CORRIGIR e MENSURAR respostas discursivas. Contudo, de que outra forma saberei se estão dando conta de registrar SEUS pensamentos?


Porém, ao analisar as respostas, tive uma GRATA SURPRESA. Não apenas no que se refere à última questão; mas a outras tantas.  OS ALUNOS FORAM MARAVILHOSOS! Logo, não há registros apenas das respostas da última questão, mas também de outros tantos comentários PERTINENTES e INTELIGENTES.

Outra observação a ser feita é que a mesma atividade foi aplicada nas  séries do Ensino Médio. Contudo, na atribuição das menções, levei em conta a MATURIDADE e o DISCERNIMENTO dos alunos e de suas respectivas faixas etárias/série. Tive outra grata surpresa: ESTE CRITÉRIO NÃO PODE SER UMA REGRA!


Assim, seguem o OBJETIVO e o texto base da prova. Em seguida, e gradativamente, as postagens dos próprios alunos.

OBJETIVO: Constatar o aprendizado acerca do emprego da gramática normativa nas interpretações e nas INFERÊNCIAS TEXTUAIS; bem como o emprego desta na elaboração de respostas que satisfaçam a série em questão, demonstrando o nível de maturidade de cada aluno e/ou série.





Sobre os perigos da leitura (Por Rubem Alves)


Nos tempos em que eu era professor da UNICAMP fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento. Dizer “esse entra”, “esse não entra” é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como, em vinte minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra. Os candidatos amontoavam-se no corredor  recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma ideia que julguei brilhante.

Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!” Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. MUITOS IDIOTAS  TEM BOA MEMÓRIA. Interessávamos por aquilo que ele pensava.


Poderia falar sobre o que quisesse desde que fosse aquilo sobre que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue!  Mas a reação dos candidatos não foi a esperada. Foi o oposto. Pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos – ah! Isso não lhes tinha sido ensinado. Na verdade nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes. Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta não era para valer.

Não era possível que estivéssemos falando a sério. Deveria  ser uma dessas “pegadinhas” sádicas cujo objetivo é confundir o candidato. Por via das dúvidas ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que ela havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e lhe disse: “Eu já li esse livro. Eu sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas nós não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…” Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.



Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é uma conseqüência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura. O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem que se leia “Grande Sertão – Veredas” em pouco mais de três horas.

Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: “É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante.” Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: “Quando lemos outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental.”
Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: “Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram o que resta? Perde-se, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria… Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo…”

Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E, com isso, haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos (…).E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma única coisa: O PRAZER DE LER! (Fonte: http://rubemalves.wordpress.com – acesso em 03/03/2014)







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