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EDUCAR É, ANTES, SENTIR... E TODOS SÃO CAPAZES DISSO.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

100 HORAS OFF (HUNDRED HOURS DISCONNECTED)

POR MARI MONTEIRO





Ficar cem horas off pode parece pouco. Tem gente que fica mais, seja por opção ou por necessidade. Mas já vi (e você também rs) pessoas  surtarem por conta de minutos  sem internet ou por conta de internet lenta). No meu caso foi tudo junto: uma viagem necessária para uma região serrana, precisamente num sítio, sem sinais para qualquer operadora de celular e muito menos para internet, para visitar minha Tia- Mãe Guinha. Além disso, confesso que experimentar algo “diferente” me atrai. Digo diferente, porque da última vez que fui pra lá, fiquei apenas dois dias...


O fato de olhar em volta e só ver e ouvir a natureza é algo que não faz parte da nossa rotina, corremos até mesmo o risco de esquecer como é. Já no caminho, a paisagem começa a mudar, gradativamente, a cor cinza vai sendo substituída pelo verde. Sempre achei aconchegante olhar em volta e ver montanhas e mais montanhas.




À noite, nos entretemos com um único canal de TV. Mas, eu e minha sobrinha achávamos mais interessante ficar lá fora, onde não se enxergava um palmo diante dos olhos. Daí a impressão da magia: mais e maiores estrelas que em qualquer outro pedaço de céu. Além dos vaga-lumes... Nem me lembro de quando vi um na cidade.


Certamente quem é daqui como minha tia, tios, primos não vêem a diferença no cheiro e na densidade do ar. Por exemplo, o cheiro das folhas dos eucaliptos pra mim é algo inebriante. Remete-me à infância. As pessoas daqui CONVERSAM gente! E elas conversam sobre os mais variados assuntos e, com seus diálogos simples, se fazem entender de um jeito simples  e coerente pertencentes apenas aqueles cujo conhecimento não advêm apena das teoria, mas da lida diária.


Aqui a prosa corre fácil. As pessoas não são monossilábicas. Basta puxar um fio da meada de um causo antigo a e pronto. Tem conversa pra noite toda. Tente fazer isso no nosso dia a dia atropelado pela correria, ou no meio de um programa de TV, ou quando alguém estiver mexendo no celular... A pessoa, no mínimo, vai olhar pra sua cara ( com sangue no olho, claro rsrsrs) e, puta porque foi interrompida, vai se limitar a acenar negativamente com a cabeça.



Numa destas manhãs, acordei com meu primo, que tem mais de cinqüenta anos dizendo: “Bênção Tia, Bênção Tio!” E logo já foram convidados pra um café na cozinha que, segundo Rubem Alves, é o coração da casa. Não demorou e minha mãe veio chamar: “Vamos meninas! Sua Tia Rosinha e o Primo Juza vieram buscar vocês pra almoçar!” Não que estas palavras não existam no nosso cotidiano; mas, assim, com este carinho e com esta gentileza, não existem não. Pense em um vizinho que mora em outro bairro, vindo a pé até sua casa pra te levar pra casa dele pra almoçar...


Todo final de tarde saíamos para caminhar, pés no chão, vento nos cabelos, uma tarde destas vimos muitos tucanos bem de pertinho. E foi então que pensei: “Como suportamos tanta pressão, tanta poluição sonora e não surtamos amiúde???”. Outra coisa que me ocorreu é que, muito provavelmente, eu estivesse gostando tanto do silêncio e dos diferentes sons, porque tinha certeza de que meus dias ali estavam contados. O meu reencontro com a URBANIDADE estava marcado. Talvez não ficasse tão tranquila, por exemplo, se não tivesse certeza de quanto tempo ficar ali.



Por ora, o que sabia era que a QUIETUDE havia tomado conta de mim. Embora eu deva ter demorado aproximadamente umas oito horas para desacelerar, o que não foi muito. Na cidade, devido aos fatores externos, dificilmente conseguiria este feito. À noite, depois que todos se acomodavam em suas camas, só se ouvia o som do vento, grilos... Nenhuma moto zuando com o escapamento aberto; buzinas; sirenes; gritos de pessoas na rua, vozes na vizinhança, carro com som alto (aliás, carro nenhum rsrs). E aí amigo era só EU COMIGO MESMA, do tipo: “Vem cá minha nega, vamos conversar!”. A principio, foi assustador. Eu não queria conversar comigo mesma... Sou complicada, tenho muitas coisas pra resolver, de outras quero fugir... Mas, o inevitável encontro aconteceu. Doeu? Sim. É agradável ouvir a própria voz dizendo verdades? Não! Ter a certeza de que é só você que pode enfrentar todos os seus medos, que mais ninguém fará isso por você é assustador, mas determinante.


Fato é que passei por um enfrentamento bom, necessário, lúcido e inesquecível. Um enfrentamento que só foi possível aqui: entre os meus, pisando no chão, no silêncio absoluto da noite. O que nunca teria acontecido na minha zona de conforto. Aqui o silêncio é tão grande que “grita” e, de algum modo, ele sussurra: “Também sinto medo de mim”.


Na minha última noite lá, em pé, numa clareira, tratei de firmar alguns compromissos comigo mesma: apertar o “reset” de vez em quando, me isolar da enxurrada de imagens, de sons, de gritos, da competitividade desleal; da vaidade excessiva; dos padrões... Do famoso “vender o almoço pra comprar o jantar”.



O que percebo – e isso é muito pessoal – é que CAMINHO RUMO AO NADA FAZENDO DE UM TUDO. Corremos muito pra chegar a lugar nenhum; discutimos tudo que já foi dito e que já foi feito, literalmente, andamos em círculos e sem “pausas”, acreditando que estamos indo sempre para frente. ENGODO! Não estamos. O máximo que estamos conseguindo é adoecer nossa alma. E o que fazer? Retroagir? NÃO! Estagnar? NÃO! É mais complexo que isso: encontrar e manter o EQUILÍBRIO entre afazeres diários tão antagônicos: cumprir regras X relaxar; “bater metas” X lazer; usar as ferramentas tecnológicas sem se deixar escravizar por elas...  E por aí vai.

O que torna a busca de equilíbrio tão difícil é o fato de que vivemos num mundo, onde somos peças de catálogos. Procuram-se amizades e casos  de amor de acordo com as poses e com as descrições feitas no catálogo. Sinto-me privilegiada por ter aproveitado cada momento em que estive “off”para determinadas coisas e “on”para outras. Foram 100 horas incríveis:


►100 horas off de celular e on de conversa.
►100 horas off de touch e on de abraços.
►100 horas off de youTube e on de paisagens reais.
►100 horas off de fone de ouvido e on de sons da natureza.
►100 horas off de vista cansada e on de descanso para os olhos.
►100 horas off de Google e on de descobertas maravilhosas.
►100 horas off de áudio de whats e on de vozes reais.


Destas horas, guardarei muito aprendizados... Um deles é que não demonizo de modo algum a tecnologia e a aglomeração da cidade grande; simplesmente, porque não são estes aspectos que determinam quem devo ser ou poderei vir a ser. Outro aprendizado e o mais raro deles é que podemos estar cercados de dezenas de pessoas, mas  estarmos sós; podemos estar cercados de toda tecnologia existente e ela não nos livrará de um mal súbito nem da perda de quem amamos; podemos estar cercados de amigos e, ainda assim, sermos traídos. 

Enfim, a verdade é que, pobres de nós, que achamos que poderemos passar a vida fugindo de um encontro fatal conosco mesmos, ele nos espreita logo ali... No silêncio com que, cedo ou tarde, nos esbarraremos.

 


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A MORTE DO DIÁLOGO (DEATH OF DIALOGUE)

POR MARI MONTEIRO



O diálogo a que me refiro no título é o diálogo em forma de conversa, no sentido mais simples de sua concepção que, de acordo com o dicionário Priberam de Língua Portuguesa, significa: conversa entre duas ou mais pessoas. Logo, vamos conversar sobre a morte da conversa. Redundante? Sim. Irreal? Não.



Pensemos. Estamos vivendo numa Era em que a informação e nunca foi tão acessível. Sabemos de tudo ou de quase tudo na hora em que temos CURIOSIDADE, desde como fazer um drink até a leitura de uma tese se doutorado. Mas, passado este momento, esquecemos ou nos entretemos imediatamente com outra coisa, que também está à disposição na rede. Isso não é ruim. O ruim é que sabemos superficialmente de milhões de coisas que não nos  servirão para nada se não forem internalizadas. E, certamente, não daríamos conta (e nem precisamos disso!) de internalizar o que não é CONVERSADO e, conseqüentemente, não é entendido.


Então, estou dizendo que para compreender determinado assunto, é necessário conversar sobre o mesmo? Sim! Do contrário, ele é apenas uma informação. E o que nos tornamos quando acessamos informações? MEROS REPRODUTORES DO QUE JÁ FOI DITO POR OUTRA PESSOA. E, nesse hábito de nos informar cada vez mais e conversar cada vez menos, perdemos nossa capacidade de argumentar, de entender, de ser capaz de enxergar a partir de diferentes pontos de vista... O que já é uma das tantas implicações da morte do diálogo.



Ao invés de usarmos todas as ferramentas tecnológicas disponíveis, incluindo as Redes Sociais, para nos tornarmos mais pensantes e articulados, nós fazemos o contrário: sintetizamos cada vez mais nossa comunicação; reduzimos nosso vocabulário (escrito ou falado), repetimos idéias alheias (o que é diferente de compartilhar... isso é bom!) como sendo nossas, e reproduzimos isso em nossa casa, no trabalho e em nossos relacionamentos afetivos. ESTAMOS NOS TORNANDO SERES MONOSSILÁBICOS!


Estou culpando a tecnologia por isso? ABSOLUTAMENTE NÃO! Antes eram os periódicos, depois  a TV e assim por diante... Ao contrário, entendo a tecnologia uma facilitadora para a ampliação do diálogo. Pois assunto é o que não falta nas reses. A questão é saber filtrá-los e, caso sejam relevantes, CONVERSAR SOBRE ELES. Mas, reparem nas postagens (especificamente falando das redes), quando elas são um pouco maiores (tipo cinco ou mais frases, poucos leem rsrrs e raros comentam). Estamos ficando preguiçosos ou, pior, NÃO QUEREMOS NEM SABER O QUE O OUTRO PENSA!




Em que eu acredito? Na conciliação da tecnologia e do diálogo. Mais que isso. Acredito que a tecnologia deve nos servir e nos humanizar e humanizar implica em dialogar. Telefonema virou luxo. Olhar nos olhos então, já tem pessoas que se sentem constrangidas se começamos a fitá-las. Basta pensarmos em qual foi a última vez que conseguimos conversar longamente com alguém olhando nos olhos da pessoa, sem que um toque de celular atrapalhasse. Entendo que o celular é essencial; mas, chego a ser radical quando; por exemplo, preciso de dez minutos com alguém (MÍSEROS DEZ MINUTOS!!!) e a pessoa n;ao desliga ou silencia o celular. Eu faço isso! Sempre que alguém diz: “Mari, preciso falar com você!”, a primeira coisa – depois do susto! Rsrs – que faço é silenciar o celular. É grosseiro, estarmos conversando com a pessoa e a criatura visualizando whatsApp... Com raras exceções, isso pode esperar um pouco né?




E, de tanto ver muito e de conversar pouco, estamos desaprendendo a ouvir. E, quem não ouve, não conversa. A nossa impaciência aliada à pressa e à fluidez das coisas está fazendo com que acreditemos que conversar é perder tempo. Se repararem bem, falta assunto, quando não há programas de TV, posts, piadinhas, fofocas de artistas... E falar sobre nós mesmos? Pra quê? Com quem? A quem interessa? Pensar sobre isso e concluir que conversamos cada vez mais é sinal de que ao estamos apenas nos calando; mas, também, nos anulando.




É preciso se sentir à vontade com ö outro”, falar de nós mesmos e ouvir o que ele tem a dizer. Se nós, adultos, estamos conversando cada vez menos entre nós,com que direito reclamamos dos adolescentes que passam a maior parte do dia trancada em seus quartos on line? E, nem precisa ser adolescente (meã culpa). Neste exato momento, estou no meu quarto trabalhando enquanto minha mãe está on line no Facebook e  acabou de me mandar um vídeo pelo Whats. Moramos na mesma casa e nos encontramos pela manhã, depois na cozinha para almoçar e..., por vezes, uma “visita o quarto da outra”. Isso é muito louco! Rsrsrs Rio agora, mas, sei que lamentaremos isso um dia: Ah, porque não conversamos mais enquanto podíamos!” E é assim que ocorre na maioria dos lares...



Enfim, não se trata aqui de levantar bandeira contra ou a favor de determinada postura, mas de repensar até que ponto isso nos faz melhores ou piores em termos de civilidade, de cultura, de educação e de afetividade. Mais um tempo assim, e não sentiremos mais a falta de ouvir as vozes de quem amamos... Isso não entra na minha cabeça. Nós ainda escrevemos. Sim, escrevemos. Mas, muita coisa se perde na escrita: o olhar, a entonação, o timbre da voz... Tudo pode COEXISTIR: celulares, abraços, whatsApps; conversar ao vivo; posts no Face; encontros reais; amizades virtuais; fotografias; viagens... Uma atitude não anula a outra. Posto fotos e selfies, porque vivenciei algo bom e quero compartilhar, posto um encontro com amigos, porque estive com ele e CONVERSEI COM ELES... Importa estar junto, DIALOGAR, tocar o outro com palavras e com afagos... Em tempo. Ou seja, feliz daqueles que ousarem olhar para "cima" e procurar outros olhares que não estejam fixados numa tela. ‘’E no meio de tanta gente eu encontrei você. No meio de tanta gente chata sem nenhuma graça.” (Marisa Monte)



sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

NINA: UM CONTO PARA SER LIDO ANTES DA MEIA NOITE DO DIA 31 DE DEZEMBRO ( NINA: A TALE TO BE READ PRIOR TO HALF DAY NIGHT DECEMBER 31)

POR MARI MONTEIRO



Nina cresceu ouvindo os adultos dizerem que, na virada do ano, se deve fazer um pedido. Apesar de achar um pedido só muito pouco, ele sempre o fez. Muitas vezes, de olhinhos fechados, apertava suas mãozinhas, como se isso fosse conferir mais forca ao seu pedido, e  pedia logo uma lista de coisas boas. Amanhecia o primeiro dia do ano e ela esperava, pacientemente, dia após dia que seus pedidos fossem atendidos. Alguns eram atendidos. E, quando isso acontecia, ela pulava e chorava de alegria, mesmo não sabendo ainda quem os havia atendido. 


Durante seus primeiros anos de vida, um dos principais pedidos de Nina era que sua família vivesse pra sempre. Ela não conhecia brinquedos caros para pedir; não via TV e, por isso, não desejava ir a outro lugar  além das montanhas onde via o sol se por.


Mais tarde, por volta de sete anos, Nina conhece outra realidade. A realidade da cidade grande, da impessoalidade, dos dias que parecem passar mais rápido, da rispidez de parentes que não conhecia. Era tudo muito diferente. E, no seu primeiro Ano Novo nessa cidade, seu pedido foi VOLTAR NO TEMPO, ficar com sua família materna e voltar a ver o por do sol nas montanhas. Virou o ano e esse pedido não foi atendido, nem nesse ano, nem nos próximos, muito embora ela continuasse por muito tempo incluindo esse pedido à sua lista. 


Nos anos seguintes, Nina percebeu que a lista não estava diminuindo e sim crescendo. Percebeu também que seus pedidos foram se modificando.  De alguns ela já havia desistido. Além disso, o ano novo neste novo lugar era muito diferente. Todos tinham que colocar roupas novas e tinha que ter muita comida na mesa. E, na casa de Nina, não era assim. Não havia roupas novas e nem mesa farta. Mas, ela ainda insistia nos pedidos. E nada! Pedia uma casa melhor, nada acontecia. Pedia para seu pai parar de beber, nada acontecia. Pedia para não ouvir mais gritos, nada acontecia. Pedia para não ver mais sua mãe chorar, nada acontecia. Era pra desanimar. "Meus pedidos não são atendidos, porque faço tudo errado. Fico vestida com roupas velhas e não tem festa!”- pensava ela.



Na cabeça de Nina, todos que estivessem “de acordo” com o Ano Novo, teriam seus pedidos atendidos. E o pior é que isso explicava muita coisa durante o ano. As coisas não iam bem nos estudos, porque ela não fez o pedido direito.  E nem pensem na palavra “superstição”. Nina nem imaginava que isso existisse.  Além disso, ela perdeu algumas pessoas que ela pediu, com toda forca do mundo, para ficarem com ela pra sempre. E isso doeu.

Embora cada vez mais adulta e “amadurecida” feito fruta colhida verde e embrulhada num jornal, que impede de  respirar para ficar logo “no ponto”, ela ainda tinha a necessidade de acreditar que, mais adiante poderia ser diferente.  Agora Nina sabia quem a,tendia ou não os pedidos. Em Papai Noel ela nunca acreditou. Mas aprendeu a acreditar numa Forca Superior que poderia tudo nessa vida.

A essa altura, ela já possuía entendimento suficiente para saber que somente pedir não adiantava. Ela tinha que fazer a parte dela. E ela fazia. Do seu jeito torto, mas fazia. Não se tornou uma má pessoa porque seus pedidos não foram atendidos. Não sentia inveja das pessoas cujos pedidos “foram atendidos”. Mas, de uma coisa ela tinha certeza: foi preciso acreditar MUITO e SEMPRE para não largar mão de si mesma. E isso lhe fez muito bem, porque, muitas vezes, esperança é só o que  se tem. 


Também já estava claro que os pedidos nada tinham a ver com mesa farta ou roupas novas, brancas, amarelas etc. Nina conheceu muita gente e transitou por muitos lugares diferentes e via que o branco da roupa quase nunca correspondia ao branco da alma. Que na mesa farta da virada do ano, muita gente comia sozinha na maior parte do tempo. Que, depois que  os fogos de artifício silenciavam, não se abria um “portal” para um mundo sem novinho e sem problemas...

Muitas coisas boas aconteceram na vida de Nina. Ela se tornou uma pessoa  feliz. Ela é otimista e sensível. E ser otimista e sensível; às vezes dói. Ela aprendeu rápido que, além de pedir é preciso correr atrás e não é pouco não; que é preciso fazer por merecer; que não tem data prevista para o atendimento dos pedidos (não é porque se pede neste ano que aconteceram ano que vem); alguns pedidos de Nina demoraram muito para chegar; aprendeu que tudo que não teve antes ou que ainda não tem não é tão essencial assim. E, principalmente, aprendeu que não são as coisas que estão ao seu redor que fazem a diferença, mas as pessoas e o quanto de amor você tem para oferecer. 


Se vocês me perguntarem como Nina está hoje, posso afirmar que ela está bem. Ela coleciona momentos e experiências boas e bonitas, tem muitos amigos, tem uma linda família, tem alguém para amar e; bem por isso, ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, alguns pedidos são atendidos. Quanto aos que não aconteceram ao longo de sua vida, Nina tem uma explicação bem simples: ela não estava pronta para eles e nem eles para ela. E, quanto à partida de pessoas amadas, ela aprendeu que algumas “viagens”são inevitáveis e que  a ausência, apesar de dolorida nos ensina que se ainda estamos aqui para lembrar de quem partiu, temos a obrigação de viver da melhor maneira possível, porque a vida é um sopro . Nina entende que nem todos os pedidos são atendidos; dependendo dos pedidos, quase nunca serão. Mas, ela ainda fecha os olhos à meia noite e pede.




Só sei que, todos os anos, no dia 31 de dezembro, eu me lembro de Nina, ainda criança, apertando as mãozinhas uma na outra de olhinhos fechados, me lembro de onde ela conseguiu chegar e penso: “vale a pena fazer pedidos e acreditar que, ao menos uma parte deles, se realizará para mim e para você" 



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

FILME RECOMENDADO: “DEUS NÃO ESTÁ MORTO” (GOD’S NOT DEAD)

POR MARI MONTEIRO



No sábado, dia 06 de novembro, vi na HBO o filme: “Deus não está morto”. A principio eu pensei: “mais um filme gospel”. Contudo, o enredo, apesar de ter sido duramente criticado em 2014, o ano de lançamento do filme, possui diálogos muito interessantes e pertinentes, os quais cabem perfeitamente em discussões nas aulas de filosofia e até mesmo de Língua Portuguesa, já que o poder de ARGUMENTAÇÃO é amplamente empregado durante o filme.

Em tempos de extremismo; radicalismo e fanatismo religioso, convém “abrir a mente” para conhecer outras crenças, não para a mudar  nossa ou a do outro; mas, para aprender a respeitar. O enredo oferece reflexões que instigam o ato de rever nossas posturas e; sobretudo, mensurar nosso nível de fidelidade para conosco mesmos.



Especificamente sobre a QUESTÃO DIDÁTICA presente no filme, este se torna muito “útil” na medida em que questiona a validade do autoritarismo do professor em relação ao aluno. Além disso, são citados pensadores e estudiosos como: Isaac Newton; Stephen Hawking; Fyodor Dostoevsky e outros. o que enriquece muito o DEBATE UNIVERSITÁRIO.

Dentre as muitas falas marcantes durante o filme, estas permanecem latentes em meu pensamento:

“Às vezes, o diabo permite que as pessoas levem uma vida sem problemas para que elas não procurem por Deus.” (fala de personagem)

“Só um risco real testa o poder da fé.” (C.S. Lewis). A propósito, esta citação me fez lembrar outra de Clive Staples Lewis: “NÓS CONSIDERAMOS DEUS COMO UM PILOTO CONSIDERA UM PÁRA – QUEDAS DELE; ESTÁ LÁ PARA EMERGÊNCIAS, MAS ELE ESPERA NUNCA TER QUE USÁ-LO.” Lembrando que C.S. Lewis é o autor do Best Seller:” AS CRÔNICAS DE NÁRNIA”.

Enfim, segue o trailer do filme caso queiram ilustrar uma aula de Filosofia ou refletir sobre nossa própria existência:



segunda-feira, 30 de novembro de 2015

FILME RECOMENDADO: O DOADOR DE MEMÓRIAS (RECOMMENDED FILM: THE GIVER)

POR MARI MONTEIRO


Acredito nas Artes em geral como forma de aprendizado; sobretudo, como uma APRENDIZAGEM DOS SENTIDOS. Penso que a partir de músicas, de filmes, de obras de arte, da dança etc. podemos favorecer o desenvolvimento das nossas habilidades e “descobrir” outras. É por isso que, enquanto educadora, sempre gostei de COMPARTILHAR ARTE.  Sempre há um contexto didático no qual podemos estabelecer um “paralelo” com algum tipo de arte. No caso do filme baseado num Best - Seller mundial: “O DOADOR DE MEMÓRIAS”, é possível desenvolver diversas atividades interdisciplinares nas áreas de: Língua Portuguesa; Sociologia; Biologia; Arte; Filosofia; Literatura; História.



Uma sociedade cheia de regras. Uma delas e a que norteia o enredo é: NÃO MENTIR. Trata-se de uma sociedade muito atípica como verão no decorrer do filme. O pano de fundo do filme é uma sociedade sem memórias que tem como objetivo a padronização do comportamento humano.

Jonas, o protagonista, é um personagem inquieto que, desde cedo entende que não “cabe” naquele espaço. E inicia uma incrível jornada em busca de respostas.



Independentemente de utilizar este filme como “uma ferramenta pedagógica”, vale a pena assistir o filme. Ele AGUÇA NOSSOS SENTIDOS. O fato de o filme “brincar com as cores é encantador. Ele passa gradualmente do preto e branco que descansa a vista para o colorido, proporcionando uma REDESCOBERTA DAS CORES DO MUNDO. A propósito, O enredo nos conduz a atitudes como pensar e ouvir além. As tramas que acontecem nos fazem pensar sobre o QUANTO e sobre COMO valorizamos tudo ao nosso redor, desde o mais simples até o mais complexo acontecimento.



De certo modo, o filme nos conduz à tomada de algumas “decisões” como: escolher entre sentir tudo e arcar com as conseqüências ou tornar-se insensível e não sentir absolutamente nada, tratando os sentimentos antagônicos como ódio e amor; alegria e tristeza etc. como parte essencial da existência humana. Enfim, assistam e façam suas escolhas.


"Sou apenas um ser humano comum, mas não me sinto normal hoje."(OneRepublic)



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SETE MOTIVOS PARA DEIXAR DE SER PROFESSOR (SEVEN REASONS TO BE TEACHER LEAVE)

POR MARI MONTEIRO

Dia desses, conversando com uma amiga, contei sobre não ter passado bem na noite anterior... E; assim que contei, me dei conta de que passei mal porque não escrevi... Porque sou assim, quando algo me angustia, das duas uma ou eu escrevo ou converso com alguém. E, como sempre menciono neste blog, O ATO DE CONVERSAR ESTÁ CADA VEZ MAIS ESCASSO. Então, deveria ter escrito. Não o fiz. Resultado: mal estar e insônia. Além disso, mesmo quando consigo conversar, percebo que estamos cada vez mais impacientes com o outro. Não temos mais paciência de ouvir, nós queremos que tudo seja muito rápido. Ninguém tem tempo a perder.



Precisamos reaprender a falar; olhar nos olhos; tratar o outros com POLIDEZ. Nesse sentido, cabe à educação formal dar o exemplo; justamente a educação formal, local onde enxergo mais falta de educação, muito provavelmente, devido ao fato de a escola não fazer o que é mais que seu dever: HUMANIZAR AS RELAÇÕES.  O papel do professor, “hoje”, não é outro senão HUMANIZAR A EDUCAÇÃO. Como? Através; sobretudo, do diálogo. Ocorre que o professor também está desaprendendo a dialogar (e, quando uso o verbo no gerúndio, estou sendo otimista demais). Isso é muito triste. Estamos perdendo e EMPOBRECENDO nossa principal ferramenta de trabalho: a fala. E, quando digo “a fala”, refiro-me a fala que cala quando é preciso ouvir; outra atitude escassa na educação; tanto nas relações professor-aluno como aluno-aluno e em todas as outras.


Ainda sobre a fala, sou um tanto radical quanto à forma de falar do professor NO CONTEXTO ESCOLAR. Não quero dizer aqui que está permitido ao professor SER BIPOLAR. Explico. Na minha casa, meus familiares não têm, por exemplo, a menor obrigação de falar corretamente, de fazer uso da linguagem formal. E, quando estou com eles ou com amigos em situações informais , me permito falar sem a preocupação com a formalidade da língua culta. A propósito, certa vez, alguém me disse que a Língua Portuguesa (como todo idioma) é como um grande  guarda roupas, repleto de opções para todas as ocasiões e para os diferentes “encontros”; então eu o abro e  escolho um traje formal quando frequento um local que exige formalidade;  escolho um traje esportivo se vou à  academia e assim por diante. Logo, se vou à escola, que é, a priori, um AMBIENTE FORMAL, devo me vestir adequadamente, o que equivale dizer que o PROFESSOR TEM A OBRIGAÇÃO DE FALAR CORRETAMENTE. 


Sempre que converso sobre a necessidade de falar corretamente em sala de aula, não raramente, ouço críticas ferrenhas. As quais eu rebato sem o menor problema, pautada no argumento de que, muito provavelmente, a sala de aula e o “modo de falar do professor” seja o ÚNICO REFERENCIAL de comunicação que o aluno terá. Quais são os outros? Talvez nenhum. 

E o respeito? AH O RESPEITO!!! Cadê? Frequento ambientes escolares todos os dias.  Tenho o privilégio de transitar por diferentes instâncias e níveis de ensino; por isso, posso garantir que POUCAS SÃO AS PESSOAS EDUCADAS EM AMBIENTES EDUCACIONAIS. É um paradoxo? Sim. Porém, é uma triste constatação. No local onde mais se espera ser bem recebido; ouvir conversas civilizadas; presenciar respeito mútuo é onde ouço mais GRITOS e onde presencio mais DESRESPEITO.  Cabe aqui uma ilustração sobre a importância da humanização das relações. Por exemplo, um professor que trabalha com base na HUMANIZAÇÃO e que, portanto, dialoga com seu aluno, não somente veria o lápis usado pelo seu aluno, como também CONVERSARIA com ele para saber o motivo de usar um lápis tão pequeno (cerca QUATRO centímetros), que praticamente, impedia seus movimentos. 


Troquei este "lápis" por um novo,. O aluno, ao me visitar na sala de leitura, estava transcrevendo uma ficha catalográfica com isso. Perguntei se ele tinha outro e  e ele respondeu: "Não Mari, este é meu e da minha irmã.



O Google possui e apresenta, de forma interativa e interessante, infinitas vezes MAIS CONTEÚDOS E INFORMAÇÕES que o professor. Se tivermos como parâmetro apenas os conteúdos de ensino, o Google é muito mais eficiente que nós. Daí, mais um motivo para fazer valer a humanização da educação. Pois, se a escola e o professor podem oferecer, no máximo, conteúdo e informação, então o GOOGLE está anos-luz à nossa frente. Se o professor não TIVER EDUCAÇÃO  E SENSIBILIDADE SUFICIENTES para tratar seus alunos e seus pares de modo respeitoso, então o aluno não sentirá nenhum “diferencial” entre seu professor e seus colegas fora da escola.

  


Reparem que ainda não fiz alusão alguma à questão salarial ou à valorização profissional. Ouço professores justificarem suas práticas pedagógicas nada dignas com argumentos como: “NÃO GANHO PRA ISSO!”; “A GENTE FAZ DE TUDO E NINGUÉM DÁ VALOR!”. Se estes argumentos são válidos ou não, é uma questão de perspectiva. Porque, desde que presto um concurso ou me inscrevo para a função docente, estou ciente do salário. A questão da valorização é ainda mais relativa. Há gestores, comunidades e familiares que valorizam seus profissionais; outros, não. Logo, devemos ponderar sobre alguns aspectos:

- se a qualidade da minha prática está diretamente associada ao salário que aceitei, DEVO FAZER POR MERECÊ-LO, atuando de forma ética e responsável;

- se o nível da qualidade da minha prática DEPENDE DA VALORIZAÇÃO por parte da Gestão escolar, dos familiares e dos meus pares, consequentemente, minha prática oscilará de acordo com os elogios que poderei ou não receber. 

Isso demonstra o quão somos frágeis ou nos tornamos frágeis em relação à função docente. É preciso ter muita vontade e responsabilidade social para CONTINUAR DOCENTE. Entendo que há muitos problemas e obstáculos profissionais e pessoais enfrentados por nós, professores; mas entendo também que o “adulto” da relação, teoricamente, somos nós; principalmente, no sentido de possuir mais vivência que o aluno. Daí nossa responsabilidade e DISCERNIMENTO para sentir quando não dá mais; quando já ultrapassamos nossos limites de CIVILIDADE. E, uma vez, constatado isso, é UM CRIME CONTINUAR EM SALA DE AULA. 


Sempre que escrevo um artigo sobre prática docente tenho a sensação de “Déjà vu” ou de “mais do mesmo”. É uma temática clichê? Sim. E é justamente isso que me instiga a deixar alguns questionamentos:
 

1 – Uma vez que já se falou, estudou e falou tanto dobre as questões que envolvem as relações pedagógicas levando o tema, praticamente à exaustão, POR QUE AS “COISAS” NÃO MUDAM?

2 – Por que ainda ouço tantos GRITOS em sala de aula? Ouço expressões como: “Cala boca vocês dois!”; Não estou falando com você! Que saco!”“; “Não tem mãe não moleque?”... Tem muito mais... Fica pra outra vez!

3- Por que boa parte dos professores tem dificuldades de argumentar (tanto oralmente como por escrito):

4 – Por que a maioria de nós não tem o hábito de ler?

5 – Nos colocamos no lugar dos alunos; ou seja, conseguimos nos distanciar da “cena” e analisar nossa CONDUTA PEDAGÓGICA?

6 – Eu gostaria de ter aulas com um professor com meu perfil?

7 – E, finalmente, meu questionamento favorito: De que os alunos se lembrarão  quando “deixarem” a escola? 


Obviamente, tais questionamentos são apenas pontos de partida para reflexões individuais; porém, sintam-se à vontade para comentar, argumentar, contradizer... Enfim, após respondermos pra nós mesmos estas questões, basta um pouco de BOM SENSO. Se soubermos todas as respostas e continuarmos fazendo a “coisa errada” e, além disso,  NÃO ESTARMOS FELIZES COM O QUE FAZEMOS, é porque temos motivos suficientes para deixar a carreira docente.  Fato é que OS BONS DOCENTES QUE CONHEÇO possuem um perfil interessante que nos leva à constatação de que, independentemente de elogios; valorização ou “melindres”, eles enfrentam os obstáculos (que não são poucos) e ministram suas aulas com qualidade e com dignidade. Quando estiverem num ambiente escolar, reparem em volta e observem a FISIONOMIA dos professores. É fácil identificar os bons professores: ELES SÃO FELIZES E BEM HUMORADOS apesar de todos os fatores contrários. E “estão felizes” não quer dizer que sorriem o tempo todo; significa que ele SORRI PARA SEUS ALUNOS (E COM SEUS ALUNOS); que usa um TOM DE VOZ AGRADÁVEL (eu não sei quem disse que professore tem que gritar – e, pior – vira mania: grita em casa; na fila do banco etc.), eles ESCUTAM os alunos; que NÃO É RANZINZA, CARRANCUDO E “RECLAMÃO” (o que é diferente do professor consciente, que se manifesta educadamente com bons argumentos). Por fim, os PROFESSORES, aqueles que podem (e devem) continuar na carreira docente, são aqueles que NÃO MATARAM A CRIANÇA QUE VIVE DENTRO DELES. 


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