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EDUCAR É, ANTES, SENTIR... E TODOS SÃO CAPAZES DISSO.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

HOMOFOBIA NA ESCOLA? É. NA ESCOLA! (HOMOPHOBIA AT SCHOOL? IT IS. IN SCHOOL!)

POR MARI MONTEIRO




Com que direito uma pessoa olha pra outra, condena sua opção sexual, julga e pune? Nunca consegui entender isso! Cada pessoa é livre para ser o que é. Não é esse o discurso politicamente correto? SÓ DISCURSO! Porque a maioria de nós carrega uma ou mais formas de preconceito.  O que não dá a ninguém o direito de agredir o outro pela sua identidade. Antes, de acrescentar outros comentários, segue a notícia publicada pela mídia ontem (24/02/2016):


"Desde o primeiro dia de aula, eu sabia que ia apanhar. Fui xingado e ofendido. No dia que apanhei, estava com o coração apertado. Quando vi, já levei uma, duas pauladas. Depois, socos, chutes e eu apaguei. E tudo isso por ser homossexual." O autor da frase é um jovem de 18 anos, estudante no segundo ano do ensino médio na escola estadual Lourdes Maria de Camargo, em São José dos Campos, e a descrição se refere ao ataque sofrido por ele, por volta das 23h de segunda-feira (22), na saída das aulas.
Na ocasião, um colega de classe dele, de 16 anos, comandou a pancadaria. Outros quatro adolescentes, todos menores, participaram da agressão. Apesar de identificados, eles foram liberados pela Polícia Civil após prestarem depoimento.
Segundo relato da vítima, ele já havia denunciado o caso para a direção da escola anteriormente. "Desde o primeiro dia de aula, ele me xinga. Nunca teve motivo. É uma coisa inexplicável", disse. "Ele disse claramente que ia me matar, que ia me pagar na saída, que ia acabar comigo", contou.
Como ameaças se intensificaram, no dia da agressão ele havia sido mudado de classe. "A direção achou melhor e me disse para ficar tranquilo que nada ocorreria. Mas, na saída, depois da aula, eu estava conversando com uma amiga na porta da escola quando ele veio com o pau. Não deu tempo de dizer nada", contou.
Durante o espancamento, a vítima afirma ter ouvido os agressores gritarem frases homofóbicas. Depois do primeiro golpe, ele afirma ainda ter visto outros quatro jovens se aproximando, também armados com pedaços de madeira. "Eu tentei correr pra dentro da escola, mas não deu tempo. Senti outras pauladas e apaguei. Só acordei dentro do carro, quando estava sendo socorrido", disse.
Ele teve ferimentos em várias partes do corpo, em especial na cabeça e abdômen. Abandonado na rua foi socorrido por populares e levado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Campo dos Alemães. Ele foi medicado, recebeu sete pontos na cabeça e foi liberado.”  (http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/02/24/aluno-gay-e-espancado-a-pauladas-por-cinco-jovens-em-frente-a-escola-em-sp.htm - acesso em 25/02/2016)



Agressões contra gays já me emputecem quando acontecem com adultos em vias publicas ou em outros locais. Agora, na porta da escola, é algo aterrador sob meu ponto de vista. Por quê? Porque é na escola que se combate, de maneira mais incisiva e didática (ao menos deveria ser assim) o preconceito. E, mais, para a “coisa” acontecer fora da escola (na saída) como é o caso, é porque começou no interior da escola, na sala de aula, nos intervalos, corredores, conversas de banheiro etc.


Aí eu pergunto: “Nenhum professor notou ou supôs que algo estaria acontecendo? Alguma piadinha? Mudanças no comportamento dos envolvidos?” Claro que sim. Sou professora. A gente percebe quando alguma espécie de bullying está acontecendo, por mais sutil que seja. Já passei por várias situações em sala de aula em que, uma vez percebido isso, sempre dei um jeito de trazer a temática “da discórdia” à tona: sejam através de redações, debates, fóruns etc. O professor tem este feeling e tem esse “poder” em sala de aula.



Enquanto a escola, na qualidade de educação formal e os professores, na condição de formadores de opinião, não tomarem pra si uma parcela maior de comprometimento com relação ao combate ao preconceito e até outros assuntos, que  extrapolem os conteúdos de ensino, o comportamento predominante na sociedade continuará refletindo preconceitos; agressividade, falta de ética etc. Não estou, com isso, apontando culpados ou responsáveis diretos para o que houve. Quero dizer que é OBRIGAÇÃO DA EDUCAÇÃO FORMAL pensar em meios de implementar disciplinas novas que possam dar conta de abordar as temáticas que causem polêmicas e que, por isso mesmo, devem ser debatidas e trabalhadas.


Há quem diga: “mas isso me uma questão cultural!” ou “isso é a sociedade quem deve resolver” ou, ainda, “quem deve resolver isso são as autoridades competentes!” Pois, todas estas questões são parte da formação e da construção do conhecimento e; portanto, passam sim pela educação formal. Além disso, considero o ambiente escolar o mais propício e oportuno para que questões polêmicas sejam tratadas, debatidas etc. Mas, ao contrário disso, ouço muito: “ah! Não ganho pra isso”; Não quero problemas pro meu lado!”; Isso é problema do aluno e da família dele!’... E nisso a escola se omite e “permite” que as questões mal resolvidas ( algumas  sequer conversadas) como: respeito; individualidade; aceitação etc evoluam para rivalidades e agressões sejam verbais ou físicas. O que é lamentável de se ver... Mas, vemos.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

FILME RECOMENDADO: “O MENINO E O MUNDO” (RECOMMENDED FILM: “THE BOY AND THE WORLD")

POR MARI MONTEIRO



Quando a animação “O menino e o Mundo” da autoria de Alê Abreu, lançada no Brasil em 17 de Janeiro de 2014, foi indicada ao Oscar 2016, confesso que ainda não havia “separado um tempo” para assisti-la. O que lamentei muito; sobretudo, quando soube que já havia passado um tempo considerável de seu lançamento. Ocorre que a espera para apreciar o filme só fez com que minha expectativa aumentasse ainda mais. 


No final da semana passada consegui assisti-la. Pensem em uma pessoa que começou a assistir ao filme achando que iria relaxar e, de repente, começou a ficar inquieta e apreensiva. Já adianto que foi uma das sensações mais estranha e ao mesmo tempo, mágica que senti. Isso ficará entendido no decorrer deste artigo. Prometo que não ocorrerá nenhum spoiler, além das informações que já foram amplamente divulgadas pela mídia. 


A primeira coisa que me chamou a atenção foi o fato de não haver diálogos ( não da forma como conhecemos, num ou noutro idioma específico) no enredo; o que leva a animação ao que chamo de uma COMUNICAÇÃO SEM FRONTEIRA. O que há são linguagens universais como: MÚSICAS; CORES; SONS DA NATUREZA (VENTO, CHUVA); RESPIRAÇÃO; TONALIDADES. 



Outro aspecto magnífico, sob meu ponto de vista, é a mudança de cenários e de circunstâncias. O protagonista transita desde um tempo que parece distante e “antigo” (como o sertão e as colheitas, por exemplo) até um tempo futurista (como fábricas abandonadas, carros modernos com homens vestidos de preto, cujas aparências e intenções são nitidamente duvidosas) que lembra um cenário “pós-apocalipse”. 



A sintonia entre música e cores é algo que salta aos olhos e aguça os sentidos.  Há cenas em que é possível VER OS SONS saindo dos instrumentos e, através de suas cores, distinguir se fazem alusão a uma temática alegre ou triste. A propósito, a trilha sonora é algo magnífico. Chega um ponto do filme em  que somos conduzidos (e seduzidos) pelas músicas e pelas imagens. E isso inquieta, porque o “normal” é ficarmos presos a enredos por conta de grandes explosões, discussões, brigas, discórdias, tramas e armações entre os personagens. E foi nesse momento que percebi o quanto esta animação é capaz de nos tirar da nossa zona de conforto, o que é excelente e até necessário, ouso afirmar.
 


O desconhecido assusta. E ele nos espreita (a nós telespectadores e ao menino Cuca) a cada cena. É uma dinâmica atraente sobre a rotina do mundo do trabalho, envolvendo desde a matéria – prima (algodão) à venda dos produtos (tecidos); que nos prende e nos faz “revirar” os pensamentos, desdobrando-os em verbos que, dificilmente, SEM A PROVOCAÇÃO SAUDÁVEL DA ANIMAÇÃO, pensamos no dia  a dia: plantar – colher – transportar – manufaturar – vender – consumir – substituir – ostentar – descartar (coisas e pessoas). 



Fato é que, além de ser uma excelente animação, é provocante. E NECESSITAMOS DESTA PROVOCAÇÃO. Estamos muito confortáveis, as crianças recebem tudo “pronto”. É tudo instantâneo... Fiquei muito curiosa em saber se elas teriam paciência para assistir a animação inteira, justamente por falta do diálogo que é, diante da sensibilidade com que foi representado o enredo, completamente desnecessário... Mas, elas entenderiam este contexto? Conheço muitos adultos que não entenderiam... E, por um “simples motivo”: ESTAMOS NOS TORNANDO CADA VEZ MAIS INTOLERANTES, IMPACIENTES E TEMOS PREGUIÇA DE PENSAR E, O MAIS GRAVE, TEMOS MEDO DE CERTAS DESCOBERTAS. Alguns de nós, simplesmente, não queremos nem saber. 



Acrescento que o filme possui um inestimável VALOR PEDAGÓGICO, não no sentido restrito da palavra; mas, no sentido de extrapolar, através de algumas disciplinas, o conhecimento sobre algumas temáticas. Enquanto Professora de Língua Portuguesa e de Literatura, criei o Projeto Cinema em Cena, cujos registros de algumas atividades realizadas, inclusive, constam em artigos publicados neste blog. Nesse sentido, elaborei Planos Completos de Trabalho por áreas/disciplinas e as respectivas temáticas contempladas no filme. Diante disso, caso exista interesse por parte de Coordenadores pedagógicos e/ou Colégios (Fundamental I ao Ensino Médio) em adquirir os Planos e as Orientações Pedagógicas acerca do Projeto “CINEMA EM CENA”; por gentileza, entrem em contato através do e mail: marimonteiro10@hotmail.com


Enfim, é possível e encantador realizar este passeio pelo Mundo na companhia de Cuca, um menino que tem muito a ensinar a nós adultos, já viciados e  adestrados pelas linhas invisíveis que nos prendem aos padrões  e aos estereótipos que nos cegam, que nos emudecem...  Lembro-me que, após ver o filme, fiquei algum tempo em silêncio e  a primeira coisa que me veio à mente foi: “SÓ É POSSÍVEL ENXERGAR O QUÃO GRANDE  SE É QUANDO TOMAMOS DISTÂNCIA DE NÓS MESMOS.”

  


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

100 HORAS OFF (HUNDRED HOURS DISCONNECTED)

POR MARI MONTEIRO





Ficar cem horas off pode parece pouco. Tem gente que fica mais, seja por opção ou por necessidade. Mas já vi (e você também rs) pessoas  surtarem por conta de minutos  sem internet ou por conta de internet lenta). No meu caso foi tudo junto: uma viagem necessária para uma região serrana, precisamente num sítio, sem sinais para qualquer operadora de celular e muito menos para internet, para visitar minha Tia- Mãe Guinha. Além disso, confesso que experimentar algo “diferente” me atrai. Digo diferente, porque da última vez que fui pra lá, fiquei apenas dois dias...


O fato de olhar em volta e só ver e ouvir a natureza é algo que não faz parte da nossa rotina, corremos até mesmo o risco de esquecer como é. Já no caminho, a paisagem começa a mudar, gradativamente, a cor cinza vai sendo substituída pelo verde. Sempre achei aconchegante olhar em volta e ver montanhas e mais montanhas.




À noite, nos entretemos com um único canal de TV. Mas, eu e minha sobrinha achávamos mais interessante ficar lá fora, onde não se enxergava um palmo diante dos olhos. Daí a impressão da magia: mais e maiores estrelas que em qualquer outro pedaço de céu. Além dos vaga-lumes... Nem me lembro de quando vi um na cidade.


Certamente quem é daqui como minha tia, tios, primos não vêem a diferença no cheiro e na densidade do ar. Por exemplo, o cheiro das folhas dos eucaliptos pra mim é algo inebriante. Remete-me à infância. As pessoas daqui CONVERSAM gente! E elas conversam sobre os mais variados assuntos e, com seus diálogos simples, se fazem entender de um jeito simples  e coerente pertencentes apenas aqueles cujo conhecimento não advêm apena das teoria, mas da lida diária.


Aqui a prosa corre fácil. As pessoas não são monossilábicas. Basta puxar um fio da meada de um causo antigo a e pronto. Tem conversa pra noite toda. Tente fazer isso no nosso dia a dia atropelado pela correria, ou no meio de um programa de TV, ou quando alguém estiver mexendo no celular... A pessoa, no mínimo, vai olhar pra sua cara ( com sangue no olho, claro rsrsrs) e, puta porque foi interrompida, vai se limitar a acenar negativamente com a cabeça.



Numa destas manhãs, acordei com meu primo, que tem mais de cinqüenta anos dizendo: “Bênção Tia, Bênção Tio!” E logo já foram convidados pra um café na cozinha que, segundo Rubem Alves, é o coração da casa. Não demorou e minha mãe veio chamar: “Vamos meninas! Sua Tia Rosinha e o Primo Juza vieram buscar vocês pra almoçar!” Não que estas palavras não existam no nosso cotidiano; mas, assim, com este carinho e com esta gentileza, não existem não. Pense em um vizinho que mora em outro bairro, vindo a pé até sua casa pra te levar pra casa dele pra almoçar...


Todo final de tarde saíamos para caminhar, pés no chão, vento nos cabelos, uma tarde destas vimos muitos tucanos bem de pertinho. E foi então que pensei: “Como suportamos tanta pressão, tanta poluição sonora e não surtamos amiúde???”. Outra coisa que me ocorreu é que, muito provavelmente, eu estivesse gostando tanto do silêncio e dos diferentes sons, porque tinha certeza de que meus dias ali estavam contados. O meu reencontro com a URBANIDADE estava marcado. Talvez não ficasse tão tranquila, por exemplo, se não tivesse certeza de quanto tempo ficar ali.



Por ora, o que sabia era que a QUIETUDE havia tomado conta de mim. Embora eu deva ter demorado aproximadamente umas oito horas para desacelerar, o que não foi muito. Na cidade, devido aos fatores externos, dificilmente conseguiria este feito. À noite, depois que todos se acomodavam em suas camas, só se ouvia o som do vento, grilos... Nenhuma moto zuando com o escapamento aberto; buzinas; sirenes; gritos de pessoas na rua, vozes na vizinhança, carro com som alto (aliás, carro nenhum rsrs). E aí amigo era só EU COMIGO MESMA, do tipo: “Vem cá minha nega, vamos conversar!”. A principio, foi assustador. Eu não queria conversar comigo mesma... Sou complicada, tenho muitas coisas pra resolver, de outras quero fugir... Mas, o inevitável encontro aconteceu. Doeu? Sim. É agradável ouvir a própria voz dizendo verdades? Não! Ter a certeza de que é só você que pode enfrentar todos os seus medos, que mais ninguém fará isso por você é assustador, mas determinante.


Fato é que passei por um enfrentamento bom, necessário, lúcido e inesquecível. Um enfrentamento que só foi possível aqui: entre os meus, pisando no chão, no silêncio absoluto da noite. O que nunca teria acontecido na minha zona de conforto. Aqui o silêncio é tão grande que “grita” e, de algum modo, ele sussurra: “Também sinto medo de mim”.


Na minha última noite lá, em pé, numa clareira, tratei de firmar alguns compromissos comigo mesma: apertar o “reset” de vez em quando, me isolar da enxurrada de imagens, de sons, de gritos, da competitividade desleal; da vaidade excessiva; dos padrões... Do famoso “vender o almoço pra comprar o jantar”.



O que percebo – e isso é muito pessoal – é que CAMINHO RUMO AO NADA FAZENDO DE UM TUDO. Corremos muito pra chegar a lugar nenhum; discutimos tudo que já foi dito e que já foi feito, literalmente, andamos em círculos e sem “pausas”, acreditando que estamos indo sempre para frente. ENGODO! Não estamos. O máximo que estamos conseguindo é adoecer nossa alma. E o que fazer? Retroagir? NÃO! Estagnar? NÃO! É mais complexo que isso: encontrar e manter o EQUILÍBRIO entre afazeres diários tão antagônicos: cumprir regras X relaxar; “bater metas” X lazer; usar as ferramentas tecnológicas sem se deixar escravizar por elas...  E por aí vai.

O que torna a busca de equilíbrio tão difícil é o fato de que vivemos num mundo, onde somos peças de catálogos. Procuram-se amizades e casos  de amor de acordo com as poses e com as descrições feitas no catálogo. Sinto-me privilegiada por ter aproveitado cada momento em que estive “off”para determinadas coisas e “on”para outras. Foram 100 horas incríveis:


►100 horas off de celular e on de conversa.
►100 horas off de touch e on de abraços.
►100 horas off de youTube e on de paisagens reais.
►100 horas off de fone de ouvido e on de sons da natureza.
►100 horas off de vista cansada e on de descanso para os olhos.
►100 horas off de Google e on de descobertas maravilhosas.
►100 horas off de áudio de whats e on de vozes reais.


Destas horas, guardarei muito aprendizados... Um deles é que não demonizo de modo algum a tecnologia e a aglomeração da cidade grande; simplesmente, porque não são estes aspectos que determinam quem devo ser ou poderei vir a ser. Outro aprendizado e o mais raro deles é que podemos estar cercados de dezenas de pessoas, mas  estarmos sós; podemos estar cercados de toda tecnologia existente e ela não nos livrará de um mal súbito nem da perda de quem amamos; podemos estar cercados de amigos e, ainda assim, sermos traídos. 

Enfim, a verdade é que, pobres de nós, que achamos que poderemos passar a vida fugindo de um encontro fatal conosco mesmos, ele nos espreita logo ali... No silêncio com que, cedo ou tarde, nos esbarraremos.

 


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A MORTE DO DIÁLOGO (DEATH OF DIALOGUE)

POR MARI MONTEIRO



O diálogo a que me refiro no título é o diálogo em forma de conversa, no sentido mais simples de sua concepção que, de acordo com o dicionário Priberam de Língua Portuguesa, significa: conversa entre duas ou mais pessoas. Logo, vamos conversar sobre a morte da conversa. Redundante? Sim. Irreal? Não.



Pensemos. Estamos vivendo numa Era em que a informação e nunca foi tão acessível. Sabemos de tudo ou de quase tudo na hora em que temos CURIOSIDADE, desde como fazer um drink até a leitura de uma tese se doutorado. Mas, passado este momento, esquecemos ou nos entretemos imediatamente com outra coisa, que também está à disposição na rede. Isso não é ruim. O ruim é que sabemos superficialmente de milhões de coisas que não nos  servirão para nada se não forem internalizadas. E, certamente, não daríamos conta (e nem precisamos disso!) de internalizar o que não é CONVERSADO e, conseqüentemente, não é entendido.


Então, estou dizendo que para compreender determinado assunto, é necessário conversar sobre o mesmo? Sim! Do contrário, ele é apenas uma informação. E o que nos tornamos quando acessamos informações? MEROS REPRODUTORES DO QUE JÁ FOI DITO POR OUTRA PESSOA. E, nesse hábito de nos informar cada vez mais e conversar cada vez menos, perdemos nossa capacidade de argumentar, de entender, de ser capaz de enxergar a partir de diferentes pontos de vista... O que já é uma das tantas implicações da morte do diálogo.



Ao invés de usarmos todas as ferramentas tecnológicas disponíveis, incluindo as Redes Sociais, para nos tornarmos mais pensantes e articulados, nós fazemos o contrário: sintetizamos cada vez mais nossa comunicação; reduzimos nosso vocabulário (escrito ou falado), repetimos idéias alheias (o que é diferente de compartilhar... isso é bom!) como sendo nossas, e reproduzimos isso em nossa casa, no trabalho e em nossos relacionamentos afetivos. ESTAMOS NOS TORNANDO SERES MONOSSILÁBICOS!


Estou culpando a tecnologia por isso? ABSOLUTAMENTE NÃO! Antes eram os periódicos, depois  a TV e assim por diante... Ao contrário, entendo a tecnologia uma facilitadora para a ampliação do diálogo. Pois assunto é o que não falta nas reses. A questão é saber filtrá-los e, caso sejam relevantes, CONVERSAR SOBRE ELES. Mas, reparem nas postagens (especificamente falando das redes), quando elas são um pouco maiores (tipo cinco ou mais frases, poucos leem rsrrs e raros comentam). Estamos ficando preguiçosos ou, pior, NÃO QUEREMOS NEM SABER O QUE O OUTRO PENSA!




Em que eu acredito? Na conciliação da tecnologia e do diálogo. Mais que isso. Acredito que a tecnologia deve nos servir e nos humanizar e humanizar implica em dialogar. Telefonema virou luxo. Olhar nos olhos então, já tem pessoas que se sentem constrangidas se começamos a fitá-las. Basta pensarmos em qual foi a última vez que conseguimos conversar longamente com alguém olhando nos olhos da pessoa, sem que um toque de celular atrapalhasse. Entendo que o celular é essencial; mas, chego a ser radical quando; por exemplo, preciso de dez minutos com alguém (MÍSEROS DEZ MINUTOS!!!) e a pessoa n;ao desliga ou silencia o celular. Eu faço isso! Sempre que alguém diz: “Mari, preciso falar com você!”, a primeira coisa – depois do susto! Rsrs – que faço é silenciar o celular. É grosseiro, estarmos conversando com a pessoa e a criatura visualizando whatsApp... Com raras exceções, isso pode esperar um pouco né?




E, de tanto ver muito e de conversar pouco, estamos desaprendendo a ouvir. E, quem não ouve, não conversa. A nossa impaciência aliada à pressa e à fluidez das coisas está fazendo com que acreditemos que conversar é perder tempo. Se repararem bem, falta assunto, quando não há programas de TV, posts, piadinhas, fofocas de artistas... E falar sobre nós mesmos? Pra quê? Com quem? A quem interessa? Pensar sobre isso e concluir que conversamos cada vez mais é sinal de que ao estamos apenas nos calando; mas, também, nos anulando.




É preciso se sentir à vontade com ö outro”, falar de nós mesmos e ouvir o que ele tem a dizer. Se nós, adultos, estamos conversando cada vez menos entre nós,com que direito reclamamos dos adolescentes que passam a maior parte do dia trancada em seus quartos on line? E, nem precisa ser adolescente (meã culpa). Neste exato momento, estou no meu quarto trabalhando enquanto minha mãe está on line no Facebook e  acabou de me mandar um vídeo pelo Whats. Moramos na mesma casa e nos encontramos pela manhã, depois na cozinha para almoçar e..., por vezes, uma “visita o quarto da outra”. Isso é muito louco! Rsrsrs Rio agora, mas, sei que lamentaremos isso um dia: Ah, porque não conversamos mais enquanto podíamos!” E é assim que ocorre na maioria dos lares...



Enfim, não se trata aqui de levantar bandeira contra ou a favor de determinada postura, mas de repensar até que ponto isso nos faz melhores ou piores em termos de civilidade, de cultura, de educação e de afetividade. Mais um tempo assim, e não sentiremos mais a falta de ouvir as vozes de quem amamos... Isso não entra na minha cabeça. Nós ainda escrevemos. Sim, escrevemos. Mas, muita coisa se perde na escrita: o olhar, a entonação, o timbre da voz... Tudo pode COEXISTIR: celulares, abraços, whatsApps; conversar ao vivo; posts no Face; encontros reais; amizades virtuais; fotografias; viagens... Uma atitude não anula a outra. Posto fotos e selfies, porque vivenciei algo bom e quero compartilhar, posto um encontro com amigos, porque estive com ele e CONVERSEI COM ELES... Importa estar junto, DIALOGAR, tocar o outro com palavras e com afagos... Em tempo. Ou seja, feliz daqueles que ousarem olhar para "cima" e procurar outros olhares que não estejam fixados numa tela. ‘’E no meio de tanta gente eu encontrei você. No meio de tanta gente chata sem nenhuma graça.” (Marisa Monte)



sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

NINA: UM CONTO PARA SER LIDO ANTES DA MEIA NOITE DO DIA 31 DE DEZEMBRO ( NINA: A TALE TO BE READ PRIOR TO HALF DAY NIGHT DECEMBER 31)

POR MARI MONTEIRO



Nina cresceu ouvindo os adultos dizerem que, na virada do ano, se deve fazer um pedido. Apesar de achar um pedido só muito pouco, ele sempre o fez. Muitas vezes, de olhinhos fechados, apertava suas mãozinhas, como se isso fosse conferir mais forca ao seu pedido, e  pedia logo uma lista de coisas boas. Amanhecia o primeiro dia do ano e ela esperava, pacientemente, dia após dia que seus pedidos fossem atendidos. Alguns eram atendidos. E, quando isso acontecia, ela pulava e chorava de alegria, mesmo não sabendo ainda quem os havia atendido. 


Durante seus primeiros anos de vida, um dos principais pedidos de Nina era que sua família vivesse pra sempre. Ela não conhecia brinquedos caros para pedir; não via TV e, por isso, não desejava ir a outro lugar  além das montanhas onde via o sol se por.


Mais tarde, por volta de sete anos, Nina conhece outra realidade. A realidade da cidade grande, da impessoalidade, dos dias que parecem passar mais rápido, da rispidez de parentes que não conhecia. Era tudo muito diferente. E, no seu primeiro Ano Novo nessa cidade, seu pedido foi VOLTAR NO TEMPO, ficar com sua família materna e voltar a ver o por do sol nas montanhas. Virou o ano e esse pedido não foi atendido, nem nesse ano, nem nos próximos, muito embora ela continuasse por muito tempo incluindo esse pedido à sua lista. 


Nos anos seguintes, Nina percebeu que a lista não estava diminuindo e sim crescendo. Percebeu também que seus pedidos foram se modificando.  De alguns ela já havia desistido. Além disso, o ano novo neste novo lugar era muito diferente. Todos tinham que colocar roupas novas e tinha que ter muita comida na mesa. E, na casa de Nina, não era assim. Não havia roupas novas e nem mesa farta. Mas, ela ainda insistia nos pedidos. E nada! Pedia uma casa melhor, nada acontecia. Pedia para seu pai parar de beber, nada acontecia. Pedia para não ouvir mais gritos, nada acontecia. Pedia para não ver mais sua mãe chorar, nada acontecia. Era pra desanimar. "Meus pedidos não são atendidos, porque faço tudo errado. Fico vestida com roupas velhas e não tem festa!”- pensava ela.



Na cabeça de Nina, todos que estivessem “de acordo” com o Ano Novo, teriam seus pedidos atendidos. E o pior é que isso explicava muita coisa durante o ano. As coisas não iam bem nos estudos, porque ela não fez o pedido direito.  E nem pensem na palavra “superstição”. Nina nem imaginava que isso existisse.  Além disso, ela perdeu algumas pessoas que ela pediu, com toda forca do mundo, para ficarem com ela pra sempre. E isso doeu.

Embora cada vez mais adulta e “amadurecida” feito fruta colhida verde e embrulhada num jornal, que impede de  respirar para ficar logo “no ponto”, ela ainda tinha a necessidade de acreditar que, mais adiante poderia ser diferente.  Agora Nina sabia quem a,tendia ou não os pedidos. Em Papai Noel ela nunca acreditou. Mas aprendeu a acreditar numa Forca Superior que poderia tudo nessa vida.

A essa altura, ela já possuía entendimento suficiente para saber que somente pedir não adiantava. Ela tinha que fazer a parte dela. E ela fazia. Do seu jeito torto, mas fazia. Não se tornou uma má pessoa porque seus pedidos não foram atendidos. Não sentia inveja das pessoas cujos pedidos “foram atendidos”. Mas, de uma coisa ela tinha certeza: foi preciso acreditar MUITO e SEMPRE para não largar mão de si mesma. E isso lhe fez muito bem, porque, muitas vezes, esperança é só o que  se tem. 


Também já estava claro que os pedidos nada tinham a ver com mesa farta ou roupas novas, brancas, amarelas etc. Nina conheceu muita gente e transitou por muitos lugares diferentes e via que o branco da roupa quase nunca correspondia ao branco da alma. Que na mesa farta da virada do ano, muita gente comia sozinha na maior parte do tempo. Que, depois que  os fogos de artifício silenciavam, não se abria um “portal” para um mundo sem novinho e sem problemas...

Muitas coisas boas aconteceram na vida de Nina. Ela se tornou uma pessoa  feliz. Ela é otimista e sensível. E ser otimista e sensível; às vezes dói. Ela aprendeu rápido que, além de pedir é preciso correr atrás e não é pouco não; que é preciso fazer por merecer; que não tem data prevista para o atendimento dos pedidos (não é porque se pede neste ano que aconteceram ano que vem); alguns pedidos de Nina demoraram muito para chegar; aprendeu que tudo que não teve antes ou que ainda não tem não é tão essencial assim. E, principalmente, aprendeu que não são as coisas que estão ao seu redor que fazem a diferença, mas as pessoas e o quanto de amor você tem para oferecer. 


Se vocês me perguntarem como Nina está hoje, posso afirmar que ela está bem. Ela coleciona momentos e experiências boas e bonitas, tem muitos amigos, tem uma linda família, tem alguém para amar e; bem por isso, ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, alguns pedidos são atendidos. Quanto aos que não aconteceram ao longo de sua vida, Nina tem uma explicação bem simples: ela não estava pronta para eles e nem eles para ela. E, quanto à partida de pessoas amadas, ela aprendeu que algumas “viagens”são inevitáveis e que  a ausência, apesar de dolorida nos ensina que se ainda estamos aqui para lembrar de quem partiu, temos a obrigação de viver da melhor maneira possível, porque a vida é um sopro . Nina entende que nem todos os pedidos são atendidos; dependendo dos pedidos, quase nunca serão. Mas, ela ainda fecha os olhos à meia noite e pede.




Só sei que, todos os anos, no dia 31 de dezembro, eu me lembro de Nina, ainda criança, apertando as mãozinhas uma na outra de olhinhos fechados, me lembro de onde ela conseguiu chegar e penso: “vale a pena fazer pedidos e acreditar que, ao menos uma parte deles, se realizará para mim e para você" 



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

FILME RECOMENDADO: “DEUS NÃO ESTÁ MORTO” (GOD’S NOT DEAD)

POR MARI MONTEIRO



No sábado, dia 06 de novembro, vi na HBO o filme: “Deus não está morto”. A principio eu pensei: “mais um filme gospel”. Contudo, o enredo, apesar de ter sido duramente criticado em 2014, o ano de lançamento do filme, possui diálogos muito interessantes e pertinentes, os quais cabem perfeitamente em discussões nas aulas de filosofia e até mesmo de Língua Portuguesa, já que o poder de ARGUMENTAÇÃO é amplamente empregado durante o filme.

Em tempos de extremismo; radicalismo e fanatismo religioso, convém “abrir a mente” para conhecer outras crenças, não para a mudar  nossa ou a do outro; mas, para aprender a respeitar. O enredo oferece reflexões que instigam o ato de rever nossas posturas e; sobretudo, mensurar nosso nível de fidelidade para conosco mesmos.



Especificamente sobre a QUESTÃO DIDÁTICA presente no filme, este se torna muito “útil” na medida em que questiona a validade do autoritarismo do professor em relação ao aluno. Além disso, são citados pensadores e estudiosos como: Isaac Newton; Stephen Hawking; Fyodor Dostoevsky e outros. o que enriquece muito o DEBATE UNIVERSITÁRIO.

Dentre as muitas falas marcantes durante o filme, estas permanecem latentes em meu pensamento:

“Às vezes, o diabo permite que as pessoas levem uma vida sem problemas para que elas não procurem por Deus.” (fala de personagem)

“Só um risco real testa o poder da fé.” (C.S. Lewis). A propósito, esta citação me fez lembrar outra de Clive Staples Lewis: “NÓS CONSIDERAMOS DEUS COMO UM PILOTO CONSIDERA UM PÁRA – QUEDAS DELE; ESTÁ LÁ PARA EMERGÊNCIAS, MAS ELE ESPERA NUNCA TER QUE USÁ-LO.” Lembrando que C.S. Lewis é o autor do Best Seller:” AS CRÔNICAS DE NÁRNIA”.

Enfim, segue o trailer do filme caso queiram ilustrar uma aula de Filosofia ou refletir sobre nossa própria existência:



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